domingo, 8 de janeiro de 2012

Primárias republicanas nos EUA favorecem Obama


Benjamim Formigo |
8 de Janeiro, 2012 

O Presidente norte-americano em exercício e com capacidade para fazer um segundo mandato tem sempre uma enorme vantagem sobre o seu putativo opositor.
Não há memória de um partido retirar a confiança ao Presidente. Ele é por definição o candidato do partido. A oposição vai passar por um longo e penoso processo de auto destruição até definir o candidato que o há-de confrontar.
Barack Obama em exercício observa a luta entre candidatos republicanos que se iniciou no dia 3, em Iowa. Mas não se limita obviamente a observar, aproveita a ocasião para fazer nomeações e tomar medidas governativas que vão ser importantes na sua própria campanha e com uma posição mínima do Congresso, parte dele também em campanha.
Se a força que o Tea Party (uma invenção ultra conservadora dentro do Partido Republicano) parece demonstrar no Congresso tivesse tradução nas primárias nem o seu ideólogo Newt Gingrich nem Michele Bachmann, criadora do Tea Party no Congresso, tinham no Iowa os maus resultados que forçaram Michele a abandonar a corrida a favor de Rick Santorum e colocaram Gingrich em quarto lugar.
Mitt Romney, ex-governador do Massachusetts, East Coast”, Ivy Leage, conhecido pelas posições liberais, que abandonou, ganhou, por oito votos, a eleição num Estado conservador pouco aberto à burguesia favorecida da Ivy Leage e ao liberalismo da East Coast. A Ivy Leage, ou Liga de Marfim existe apenas na East Coast, ou Costa Leste, onde aportou o navio “Mayflower” com os primeiros imigrantes distintos que iam dominar a economia a partir daquela costa.
Os oito votos de Mitt Romney traduziam uma eventual vitória de Pirro se as sondagens noutro Estado, também com poucas simpatias pela Ivy Leage, o New Hampshire, não lhe dessem uma vitória esmagadora sobre Rick Santoro. Nem se Romney nesta fase da corrida dispusesse de fracos financiamentos. Ora, é público que a campanha do antigo governador do Massachusetts estava perto dos 15 milhões de dólares antes do resultado do Iowa e das sondagens de New Hampshire.
Nas primárias norte-americanas nada está garantido. Mas um dos principais indicadores do favoritismo é o volume de financiamento recolhido por um candidato. Assim, Mitt Romney, mal estavam conhecidos os resultados no Iowa, voou para New Hampshire para receber um apoio relutante do senador John McCain, o segundo mais importante após o do antigo senador Bob Dole, um homem de imenso prestígio no panorama político norte-americano.
Em paralelo com os fundos de que a sua candidatura dispõe, Romney lançou uma campanha publicitária, tendo já em vista não só as primárias do dia 10, no New Hampshire, como as de 21, na ­Carolina do Sul e da Florida, a 31. Uma campanha que, de momento, nenhum dos outros candidatos à nomeação republicana pode fazer por insuficiência de fundos.
Com o sistema maioritário de eleição de delegados à Convenção Republicana – quem ganha leva os delegados todos –, Romney procura conseguir o máximo de vitórias antes da Super Tuesday, a terça-feira, 6 de Março, quando em simultâneo dez Estados votam nas primárias, tornando praticamente definitiva a nomeação de um candidato.
Em Fevereiro, outros oito Estados votam um candidato e decidem quantos delegados ele vai ter na Convenção republicana, em 27 de Agosto, em Tampa Bay, Florida, num espantoso edifício que mais convida a apreciar o ambiente do que a participar numa reunião.
Mitt Romney tem razões para estar satisfeito porque existem múltiplos candidatos que se digladiam por um lugar que os mantenha na corrida, deixando-o fazer a sua campanha.
O senão desta posição privilegiada do antigo governador do Massachusetts foi a venda da alma ao diabo. Pelo menos assim parece. Romney esteve à frente do Massachusetts a promover cuidados públicos de Saúde, do Ambiente, da protecção Social. Em campanha surge um novo Romney a renegar tudo quanto defendeu e promoveu na sua prática política, optando por uma política externa agressiva mesmo militarmente. Um discurso que o jornal “Le Monde”, em editorial, considera colocar Ronald Reagan no centro esquerda.
Ao lermos tudo o que ficou para trás sentimo-nos tentados a acreditar que a escolha republicana está decidida. Longe disso. Basta que New Hampshire surpreenda, escolhendo Santorum para que a vida se complique ao que parece ser um imparável governador da Costa Leste. Os financiamentos vão dividir-se e a Flórida pode tornar-se decisiva ou a divisão entre os republicanos vai continuar até à super terça-feira.
Newt Gingrich, o conservador que deu a volta ao Congresso no mandato Clinton – o nome podia meter medo – teve um resultado lastimável em Iowa e não se espera que melhore em New Hampshire. Gingrich cometeu já demasiados erros políticos para poder aspirar a uma candidatura.
Barack Obama está, da Casa Branca, a colocar os seus peões e a legislar um pouco mais à esquerda, o que tem feito, mas sem poder afastar-se da linha moderada, quase conservadora com que tem ­governado.
A seu favor jogam dois factores importantes: a retirada do Iraque e a descida do desemprego para os limites mais baixos dos últimos três anos. Esta queda tem-se mantido ao longo dos quatro últimos meses, estando agora em 8,5 por cento, um nível que não se registava desde o início do seu mandato. Embora cautelosos, os conselheiros de Obama esperam poder contar com estes números para convencerem o eleitorado que se perfila uma retoma e que vale a pena dar-lhe um segundo mandato.
Os receios que a retoma não se desenhe podem ser confirmados por uma subida dos preços do petróleo, uma recessão na Europa ou um abrandamento na economia chinesa. Qualquer um destes factores põe em causa a queda do desemprego e pode fazer descarrilar a campanha de Obama.
No dia 3 de Setembro, em Charlotte, Carolina do Norte, os democratas têm a Convenção Nacional, que é não apenas o momento da consagração de Obama como o candidato do partido, como o de intensificação de uma contra-ofensiva à propaganda republicana que se vai desencadear a partir do final da reunião republicana de 27 de Agosto.
Até agora, a Casa Branca tem conseguido manter-se nas notícias, não deixando muito espaço à propaganda republicana.
Uma coisa é certa: 2012 é um ano em que os Estados Unidos estão ainda mais absorvidos do que habitualmente com questões internas. Toda a actividade governativa vai ter por objectivo favorecer o Presidente e no Congresso os republicanos hão-de de fazer tudo para o prejudicar. Não esqueçamos que no complicado processo eleitoral norte-americano também estão em disputa lugares no Congresso e governos estaduais.