segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O ano em que políticos e a ONU perderam credibilidade


Benjamim Formigo |
2 de Janeiro, 2012 

O ano que terminou não vai deixar boas recordações nem contribuiu para a tão desejada quanto procurada “entente” entre eleitos e eleitores, mercados e Governos, facções rivais, e conflitos prolongados.
De 2011 para 2012 pouco de positivo, se alguma coisa, transita em matéria de política internacional, de ambiente geoestratégico ou progresso económico. O ano que acaba deixou o Mundo à beira de uma recessão global mas sobretudo provou a fragilidade, senão mesmo a falência do sistema financeiro, que se sobrepôs à política. Em contrapartida sobram os problemas.
A crise financeira iniciada em 2008 nos Estados Unidos não foi debelada na Europa, onde os políticos da União Europeia falharam em catadupa as tentativas de conquistar a confiança dos mercados. Falharam o diálogo e o entendimento entre Governos e Estados da União, demoraram uma eternidade a tomar decisões. Esquecendo que os mercados reagem em períodos de 24/48 horas, os Governos Europeus perderam meses a decidir e quando decidiam os fundamentos da resolução estavam ultrapassados pelos acontecimentos.
O segredo na gestão de uma crise, seja ela qual for, é antecipar os acontecimentos ou antecipar-se aos acontecimentos. Ir a reboque deles é uma receita desastrosa. Por fim conseguiram um entendimento que ainda terá de passar por mais decisões comuns mas que ao menos acalmou um pouco os investidores que, por enquanto, se estão a sobrepor aos especuladores.
Barack Obama teve de negociar com os republicanos uma fórmula para aumentar a dívida americana antes de começar a sua redução. Levou também demasiado tempo e as agências de rating desceram a nota dos EUA. Mas ganhou alguns pontos com o dólar a reassumir o seu papel de moeda de referência e a ganhar terreno sobre o euro.
Já sobre o Natal as últimas tropas norte-americanas entraram na estrada que os levaria ao Kuwait deixando para trás um Iraque instável e de futuro duvidoso. No Norte do Iraque as tensões com os curdos acentuam-se como se aprofunda a ruptura entre sunitas e xiitas no resto do país. Ao fim de anos de guerra e literal ocupação americana os Estados Unidos abandonam o país sem honra nem glória, deixando atrás de si um foco de instabilidade e muitas dúvidas.
Desta guerra ficou apenas uma certeza: ao contrário do que disseram George W. Bush e outros governantes europeus, no Iraque não existiam armas de destruição massiva, tal como o sustentara o chefe da equipa de inspectores da ONU, Hans Blix. Os políticos saíram mais uma vez a perder, desprestigiados por fracassos e mentiras.
De repente surge no Norte de África e espalha-se rapidamente uma duvidosa “Primavera Árabe”. Exultaram os mais ingénuos e crédulos. Tunísia, Egipto, Líbia, Bahrein, Iémen e até Arábia Saudita conheceram períodos de instabilidade. Na Tunísia o Governo caiu rapidamente, os americanos abandonaram o seu aliado Hosni Mubarak à sua sorte, contudo não claudicaram no apoio aos regimes no Iémen, Bahrein e Arábia Saudita.
Na Síria nem se fala. Os americanos não se querem envolver, os israelitas precatam-se e os turcos pareciam dispostos a fazer as honras da casa, mas a Síria é um osso muito difícil de roer e quanto mais se incitar à contestação mais a situação se irá agravando e mais complicada e humanamente custosa será a solução.
Na Tunísia a “Primavera” corre sem grandes alaridos. Em contrapartida no Egipto já se começa a falar em “Inverno Árabe” com os mesmos militares que garantiram uma saída estável do ex-presidente Mubarak a serem contestados. A autocracia não caminha para uma democracia mas para uma teocracia se os militares baixarem os braços. Quem está por detrás de toda a agitação? Uma pergunta que ninguém quer responder. Não me venham dizer, por favor, que são espontâneas com sms ou convocadas no Facebook!
Nicholas Sarkozy forçou uma ingerência militar na Líbia. Fê-lo depois de conseguir no Conselho de Segurança da ONU a aprovação da Resolução 1973 permitindo a intervenção estrangeira “em defesa de populações civis”. Viu-se! Sem essa intervenção franco-britânica com algum apoio americano não se sabe o que teria sucedido. A R 1973 foi usada a bel-prazer da dupla Sarkozy – Cameron e de um tímido Obama. O secretário-geral da ONU calou-se quando devia ter denunciado a violação do cumprimento da Resolução e protegido o nome da ONU e assim prestigiado a organização. Escrevi há anos, quando sucedeu a Annan, que pouco seria de esperar dele. Era óbvio.
A NATO aceitou vergonhosamente dar cobertura. Kadhafi não foi derrubado pelo povo líbio mas pelo apoio aéreo da NATO – leia-se França e Grã Bretanha e os “drones” americanos (e talvez um dia se saiba a verdade sobre tropas terrestres).
O dirigente líbio foi chacinado, contra todas as promessas do conselho de transição.
Um relatório da ONU sobre o nuclear iraniano à medida das acusações da CIA veio denunciar presumíveis avanços perigosos de um alegado programa nuclear militar iraniano. Não que eu duvide desse programa mas a diplomacia – que em dado momento resultou – retrocedeu deixando (ou empurrando) esse programa.
Em Israel não se vislumbra qualquer abertura ao diálogo com a Autoridade Palestiniana agora com outra legitimidade. Todavia os israelitas começam a levantar dúvidas sobre Netanyahu. O movimento ainda é incipiente mas está lá.
Em 2011 assistimos de facto a uma imensa perda de credibilidade dos políticos, junto dos eleitorados e dos mercados. Assistimos em 2011 ao surgimento de movimentos de indignados nos EUA e na Europa. O desemprego mundial está a níveis semelhantes ao período que antecedeu a Segunda Guerra Mundial.
Obama, Merkel e Sarkozy vão enfrentar eleições em 2012. Necessitam de financiamentos e votos. Em teoria terão de agradar a gregos e troianos. Não necessariamente, o eleitorado tem memória curta e é bem mais tolerante que os grupos que financiam campanhas e fazem presidentes. Mesmo assim nenhum dos três tem à partida a eleição assegurada, em especial Sarkozy e Merkel. 2011 poderá muito bem revelar-se o “annus horribilis” dos políticos. Mas quem paga serão os eleitorados.