22 de Janeiro, 2012
Vladimir Putin e o seu sucessor Dimitri Medvedev não confiam. Mantiveram sempre uma política reservada e sentiram recentemente, com os acontecimentos na Líbia, a violação de uma Resolução negociada do Conselho de Segurança que a sua falta de confiança tem sustentação. Prosseguiram, por isso uma, linha, primeiro de endurecimento, depois de coexistência, mas sem perder de vista o regresso da Rússia.
Boris Ieltsin governava com os olhos postos nas parcerias e amizades com o Ocidente, privilegiava a promoção da sua imagem externa e promovia uma clique de amigos, fervorosos adeptos do neoliberalismo, de honestidade e integridade duvidosas.
Vladimir Putin mostrou-se sempre particularmente preocupado com a vulnerabilidade externa da Rússia, a afirmação do país na cena internacional, com um mínimo de concessões e nunca em áreas que considerasse de interesse estratégico. O antigo e provável novo Presidente russo mudou a estrutura da economia do país e realçou o mercado interno. Afastou ou limitou os barões de Ieltsin (mesmo que para isso recorresse à Polícia), e, tal como o sucessor designado, procurou tornar o país menos dependente das exportações petrolíferas.
Na cena internacional Vladimir Putin e o sucessor colocaram as relações com os Estados Unidos numa posição perigosamente semelhante à da Guerra-Fria depois da vitória de George W. Bush e de serem conhecidas as principais figuras da sua Administração vistas por Moscovo como do passado, guerreiros da Guerra-Fria, falcões para quem a Rússia não é “um amigo e muito menos um aliado”.
Com o tempo, a aproximação do final do mandato Bush e depois a eleição de Obama, a dupla Putin-Medvedev foi recolocando as relações em termos cooperantes, mas sem antes procurar estabelecer novas alianças e abrir portas na cena internacional que pudessem pressionar Washington em caso de necessidade.
Bill Clinton, na sua relação especial com Boris Ieltsin, preocupava-se mais em consolidar a posição interna de Ieltsin e menos com a democracia e o desenvolvimento económico da Rússia. Clinton conseguiu com essa estratégia personalista promover a consolidação dos Estados Unidos no mundo unipolar e tornar o país potência indispensável.A estratégia norte-americana foi posta em causa por Putin imediatamente após entrar no Kremlin. Não hesitou, e continua a dar indícios claros que não mudava de rumo, aproximou-se de antigos rivais como a China e o Irão, fez reviver amizades dos tempos da Guerra-Fria reaproximando-se de Cuba e do Vietname, retomando os tratados militares com a Índia sem deixar de piscar o olho ao Paquistão.
Putin declarou a oposição à expansão da OTAN à Polónia, Hungria e República Checa e uma eventual abertura da Aliança Atlântica aos estados bálticos que podia ter agravado o sentimento de cerco, herdado da Guerra-Fria e que a Rússia reviveu.
Ele e Medvedev usaram o petróleo e o gás para pressionarem os relutantes vizinhos ucranianos, o único escudo que lhe resta na frente Oeste. O Afeganistão tornou-se de novo inimigo por causa da Chechénia e desta vez um inimigo para os dois lados. As tropas russas deslocaram-se para a antiga Ásia Central soviética, prevenindo qualquer acção de guerrilha islâmica. Mas essa posição não se traduziu no sancionamento das intervenções americanas no Afeganistão e no Iraque.
Não lhe foi difícil encontrar na China um aliado de ocasião contra a hegemonia americana, primeiro, e depois contra a nova “Guerra das Estrelas” que George W. Bush defendeu. Moscovo e Pequim assinaram um tratado de cooperação impensável durante as últimas décadas. Mas a visão externa de Putin não se ficou por um virtual eixo de cooperação com Pequim. O Kremlin suavizou a posição quanto aos recursos do Mar Cáspio admitindo a exploração por todos os estados ribeirinhos. O Irão tornou-se um elemento da política externa de Putin e de Medvedev, o Kremlin abriu as portas a um negócio “multimilionário” de venda de armas ao Irão, depois da venda de capacidade electronuclear, que Washington acusa de ser usada para fins militares. Irão e Rússia dificilmente se podem considerar aliados numa região onde competem pela influência. Os interesses estratégicos de Putin e Medvedev em contrariar a hegemonia americana determinaram um apaziguamento e eventual reavaliação desse equilíbrio.
Os negócios multimilionários que a Rússia tem feito com a venda de material de guerra à China, Irão e Índia, vão servir para financiar parcialmente a reestruturação e reequipamento das forças convencionais russas. Afastada, pelo menos congelada, parece ter ficado a decisão de uma drástica redução dos efectivos militares russos nos últimos anos.
A Rússia da dupla Putin-Medvedev amplificou os laços económicos com a Europa cada vez mais ansiosa do petróleo e do gás siberianos. Afinal, o gasoduto foi o único factor que em plena Guerra-Fria dividiu europeus e americanos,designadamente opôs Thatcher a Ronald Reagan, o que é indiciador da sua importância estratégica para a Europa.
Putin trouxe à política externa russa um vinco profundamente nacionalista, afastando definitivamente a cambaleante e errática acção externa dos dias de Ieltsin. Vinco de que o sucessor nunca se afastou. Em paralelo, iniciou na frente interna um programa para devolver aos russos a auto estima e a reconstrução da imagem de superpotência, pelo menos militar, que continua a ter capacidade para destruir os Estados Unidos e o resto de Mundo numa escassa meia hora.
Isto não significa que Putin ignore a importância do Ocidente na sua segurança, nem que minimize a importância dos vizinhos mais desenvolvidos e ricos na recuperação económica da Rússia.
Homem do KGB, tem a perfeita consciência e claro conhecimento das necessidades, fraquezas e potencialidades da Rússia e da utilidade dos vizinhos. Putin e Medvedev são os gémeos nascidos em dias diferentes e, depois de Mikhail Gorbachev, os primeiros líderes do Kremlin a saberem para onde querem ir e como lá chegar.
Em breve é o momento de Medvedev se retirar para ceder lugar ao antecessor Vladimir Putin. Há muito quem não goste dessa continuidade, mas é puro aventureirismo tentar na Rússia algo semelhante às chamadas “primaveras árabes”. O urso ainda tem garras.