segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A reunião do fracasso anunciado e a crise na Zona do Euro


Benjamim Formigo
7 de Novembro, 2011

Em Cannes não aconteceu nada que não fosse esperado. Os países do G-20 optaram pela prudência e disseram aos grandes da Zona Euro que resolvessem os seus problemas, incluindo o reforço do fundo de apoio em 250 mil milhões de euros para um bilião.
Os europeus não se conseguiram apresentar na cimeira com a necessária imagem de credibilidade. O primeiro-ministro grego, George Papandreou, teve um papel decisivo nessa imagem. Ao fim de três meses de conversações e de muitas votações a União Europeia conseguira um acordo para perdoar pelo menos 50 por cento da dívida grega, recapitalizar a banca europeia e aumentar a ajuda à Grécia.
Sem aviso prévio, sem que os restantes Chefes de Estado e de Governo tivessem sido avisados, Papandreou decidiu referendar a aceitação do pacote europeu. O caos instalou-se nos mercados.
A cimeira do G-20 transformou-se numa “tragédia grega” desta vez escrita pelo novel autor Papandreou. Mas uma tragédia que não perdeu de vista os interesses financeiros, designadamente dos Estados Unidos a quem pouco interessa uma moeda alternativa ao dólar. África do Sul, China, Brasil, Índia e Rússia não estavam à partida muito satisfeitos com o comportamento de alguns países europeus na interpretação abusiva da Resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU sobre a Líbia. O ambiente político não era o mais favorável para que os países ricos pedissem auxílio financeiro.
O processo não ficou porém encerrado e foi remetido para uma reunião de ministros das Finanças do G-20 em Fevereiro próximo. Até lá a União Europeia e muito especialmente a Zona Euro terá de encontrar uma forma de subsistir e de se credibilizar. O ataque especulativo já deixou a Irlanda e Portugal para se centrar agora na Espanha, Itália e França. As taxas a que estes países têm conseguido financiar-se estão cada vez mais altas e a Itália já ultrapassou a Espanha na probabilidade de ter de recorrer a um pacote de apoio financeiro. Daí a necessidade imperiosa de aumentar o fundo de estabilização e flexibilizar a sua utilização, de o colocar sob o poder o Banco Central Europeu e de existir um processo de decisão rápido. Hoje o auxilio a um país passa pela votação e aprovação dos parlamentos, o que significa que a decisão necessária amanhã só está tomada dentro de 30 dias na melhor das hipóteses. Os “euro bonds”, que a Alemanha recusa, eram uma saída excelente e expedita para a situação que vive a euro zona.Por outro lado, a necessidade de o BCE poder comprar divida soberana e controlar o fundo de estabilização passa pela aquiescência alemã que através dos artigos 123 e 127 da União estruturou o BCE à imagem e semelhança do Bundesbank. Um decisão urgente passa hoje pela Comissão Europeia, pelo BCE, pelo presidente da Zona Euro e esbarra no Chefe do Governo alemão O problema que hoje se coloca não é exclusivamente europeu. Antes do euro quando os Estados Unidos se constipavam o resto do Mundo apanhava uma pneumonia. Hoje se a União Europeia se constipa o resto do Mundo arrisca uma gripe. A Europa com a união e o euro abandonou os hábitos de poupança para se entregar ao consumo e ao crédito barato. A dívida soberana não é apenas dívida do Estado, esta é apenas uma parte a que se junta uma outra dívida externa bem maior que é a privada, maioritariamente da banca que se financia internacionalmente para conceder créditos domésticos. Daí que a austeridade imposta aos europeus com todas as consequências que isso está a ter sobre o emprego e consequentemente sobre o consumo tenha reflexos muito para além do Velho Continente.
Cai o consumo de matérias-primas, de bens importados das economias emergentes, decresce a capacidade de investimento das empresas. Se a isto acrescentarmos a previsão da OCDE de um crescimento de 0,3 por cento da economia da zona euro em 2011 temos na verdade uma recessão geral na Zona Euro. Oportunidades de negócio não faltarão, como é evidente. Com os valores da banca e de boas empresas a caírem em bolsa, a porta abre-se a excelentes negócios, designadamente para os americanos que, de momento, sentem dificuldades no seu crescimento, entre outras razões pelo estrangulamento do mercado europeu. Um estrangulamento que será progressivamente sentido por outros mercados. O valor do euro nos mercados internacionais não reflecte a realidade da economia da Zona Euro, mas convém imenso às economias baseadas no dólar. O BCE na sexta-feira baixou inesperadamente a taxa directora, mas não houve reflexo na moeda. Sem uma descida significativa do euro, a Europa não será competitiva. Mas a Europa, se quer recuperar, tem de pôr de lado muitas das políticas que protegem apenas os grandes países, designadamente a aberrante PAC (Política Agrícola Comum) que destruiu o tecido agrícola de muitos países em favor do centro, particularmente da França.
O regresso ao sector primário será de primordial importância para a redução das dívidas externas que se escondem na dívida soberana, e isso terá consequências nas economias exportadoras de produtos agro-pecuários para a União Europeia. Em síntese, a crise da dívida soberana da zona euro ameaça economias para além da União. Se a União vier a estar em causa, a situação mundial será extremamente grave. Não é possível acabar o euro e regressar às moedas nacionais porque se ligou de tal modo a União ao euro que muito dificilmente se pode regressar pacificamente à CEE.