domingo, 2 de outubro de 2011

As mistificações e os silêncios cúmplices dos media


Benjamim Formingo
2 de Outubro, 2011

Da leitura dos jornais internacionais que nos habituamos a olhar como referências, dos noticiários das televisões globais, excepção talvez à BBC e de algum modo à Al Jazeera, nada se passa no Mundo além da famosa crise financeira que não era difícil adivinhar em 2007.
A Assembleia-Geral da ONU tem estado à margem das notícias depois do Presidente da Autoridade Palestiniana apresentar o pedido formal de reconhecimento como país independente e Estado de pleno direito.
Os jornais europeus olham para dentro das suas fronteiras e preocupam-se com a crise financeira vindo aos poucos a reconhecer, com relutância, que os gregos afinal não são uns aldrabões, os irlandeses podem sair da crise, os portugueses não estão falidos, a Itália e a Espanha estão a ser vítimas dos especuladores e que o ataque ao flanco Sul do euro visa apenas enfraquecer o centro. Os norte-americanos afinam pelo mesmo diapasão. Olham para dentro, escrutinam o Afeganistão e para o Iraque, procuram inimigos no terrorismo e acusam, com razão, os europeus de não reagirem com a rapidez necessária. Esquecendo claro que a crise é Made in USA.
A receita como é evidente é a do FMI e não varia. Ou melhor, desta vez tem uma variante: a banca europeia não sofre as imposições e com as medidas que o FMI aplicou na década de 80 na crise asiática.
O FMI trata a Europa com outro cuidado, pois os europeus, em especial da Zona Euro (ZE), estão interligados de tal modo, que até finlandeses e alemães tiveram de ceder a uma realidade não reconhecida e mesmo refutada: a crise é geral da ZE, os países mais periféricos são os primeiros a sofrer.
A realidade é que a abordagem geral da comunicação social convence muitos que existem países falidos, na bancarrota, sei lá! Todavia, essa mesma abordagem e os mesmos medias que noticiam as manifestações na Grécia e um pouco por toda a Europa não dizem o óbvio: como é que é possível à Grécia, ou qualquer outro país da ZE, relançar a economia quando a receita imposta pelo FMI, o Banco Central Europeu (BCE) e a Comissão Europeia (CE) passa pelos despedimentos na administração pública, redução de salários no Estado, liberalização dos despedimentos, aumento de impostos que penalizam fortemente a classe média, sem, contudo, intervir ao nível da tributação das empresas, designadamente da banca.
Em síntese, retira-se o poder de compra ao grupo que mais consome, aumenta-se a carga fiscal deste grupo e liberalizam-se os despedimentos de forma quase horizontal. Consequência: quebra generalizada da confiança do consumidor com a consequente diminuição da procura, a inevitável quebra na produção, mais despedimentos e cada vez menos receita fiscal.
Tudo isto tem um pouco de perverso e até de surrealista. Mas o remédio para a doença é uma outra estirpe do vírus que a causou.
Com o Mundo preocupado com a crise financeira, passam em claro os dramas que se vivem em África com a seca que atinge muitos países a provocar milhares de refugiados. A “primavera árabe”, mesmo a descarrilar, é remetida para uma página para onde estão outras notícias sobre os incidentes na Síria, no Yémen, etc... O silêncio caiu sobre a Líbia.
O desastre humanitário no Paquistão tem também direito a 200 palavras numa página par ou se as imagens forem muito boas (leia-se confrangedoras) terão os seus 20 segundos na TV. Podíamos continuar.
Um silêncio que não devia espantar. O Conselho de Segurança da ONU há uma semana que procura uma formulação para votar uma proposta de Resolução, ameaçando a Síria. Ao contrário do que seria de esperar, não é a questão palestiniana que domina os bastidores. Os Estados Unidos vão vetar, os europeus estão a ceder à pressão norte-americana e o assunto está a ser remetido para daqui a alguma semanas, com sorte.
A Síria já é outro assunto. Uma boa manobra de diversão da crise e das suas verdadeiras causas. O pequeno problema é que a Rússia deixou claro e inequívoco que vai vetar qualquer proposta que cheire, mesmo tenuemente, a sanções ou outras ameaças. O mesmo fez os outros membros não europeus do CS, em particular África do Sul, Nigéria, Índia, e Brasil.
Em Outubro a Nigéria passa a presidir ao CS, seguindo-se nova presidência portuguesa em Novembro e a Rússia em Dezembro. O panorama não é animador, sobretudo porque nem todos os dez membros não permanentes terminam o mandato em Janeiro de 2012.
Face à recusa russa e à insistência norte-americana em colocar a questão no CS, a França, com o apoio da Grã-Bretanha, a Alemanha e Portugal, procuraram toda a semana uma fórmula que pudesse ser votada, este fim-de-semana, e não sofresse o veto russo.
A resistência da Federação Russa é aquela da pessoa a quem não voltam a “enfiar o barrete”.
A Resolução 1973 sobre a Líbia foi distorcida, usada, violada. E aqui vêm de novo os órgãos de comunicação social. Os ataques contra Kadhafi realizados por aviões franceses, e mais discretamente ingleses, foram atribuídos à NATO. Ora a Aliança Atlântica entrou, ou teve de entrar, num comboio já em movimento e só em teoria tinha algo a ver com ela.
A França tinha a sua agenda para a Líbia e a Inglaterra não ia ficar de fora. Outros entraram discretamente, ao mesmo tempo que Obama se afastava conspicuamente daquele conflito onde uma Resolução da ONU serviu para dar cobertura a uma agressão externa. Veremos num futuro próximo a solicitude das petrolíferas francesas e inglesas.
Em síntese, os media escolheram uma agenda que serviu os seus patrões. Não podemos encarar os meios de informação com a independência e empenho de há 20 anos. Os tablóides, jornais e televisões mataram essa vontade de informar. Hoje importam os resultados financeiros e o vedetismo dos intérpretes da informação.
Tranquilos, é como podemos ficar, nada de grave acontece no Mundo. Nada, mas mesmo nada, acontece se não vem nos jornais nem passa na TV.