20 de Outubro, 2011
Não deixa contudo de ser importante salientar que foi colocado a ênfase na necessidade de um maior investimento no sector agrícola. Para fazer face ao consumo de alimentos, designadamente cereais, até 2050, será imperioso aumentar anualmente em mais de 80 milhões de dólares a produção de bens alimentares essenciais. Dito isto, e reconhecido que foi que a flutuação de preços em sentido ascendente se repercute em particular nas populações mais desfavorecidas e nos países menos desenvolvidos, é difícil de entender que agências da ONU tenham ignorado a declaração final da reunião de Junho do G-20. Ou se não foi ignorado, não veio a público. O G-20 analisou a mesma questão e recomendou a regulação das transacções financeiras nos mercados de futuros de bens alimentares. Do mesmo modo o G-20 considerou necessário aumentar os stocks de cereais como forma de prevenir os aumentos e a instabilidade dos preços. Medidas obviamente importantes mas que não abordam a raiz da questão. O desvio da produção de cereais para fins não alimentares e os ganhos financeiros a curto prazo proporcionados pela sua transacção nos mercados de futuros.
Hoje em dia verifica-se que aumentou de forma significativa o desvio de alimentos para a produção de biocombustíveis e a sua importância no mercado de futuros. Só nos EUA a produção de milho desviada da alimentação para a produção de etanol subiu de cinco por cento em 1995 para 35 por cento em 2010. Uma quebra na produção americana por razões naturais provocaria uma verdadeira catástrofe alimentar. O desvio não se verifica só nos EUA, esta tendência verifica-se também na Europa e América do Sul.
A constituição de reservas não é fácil quando à mais pequena oscilação de subida do petróleo aumenta a corrida aos biocombustíveis. Por outro lado, uma outra questão de fundo é a necessidade de desenvolver a produção agrícola em certas zonas potencialmente férteis e com boas condições, como é o caso de África, que a Europa vê não só como um cliente, mas um vendedor futuro. As atenções viram-se para África dada a superfície disponível, a capacidade produtiva e possuir uma população relativamente baixa, o que evitaria situações como em 2007 e 2008, quando dois grandes produtores asiáticos – Índia e Vietname – impuseram restrições à exportação para salvaguardarem as suas próprias populações.
África necessita de facto de aumentar a sua produção e diminuir a sua dependência alimentar do exterior, sem para isso ter de recorrer ao mercado transgénico, beneficiando neste caso os mais ricos e produtores dos transgénicos. Por outro lado, o aumento de produção no sector agrícola diminuiria também a dependência do Continente da exportação das suas matérias-primas.
Enquanto não existir uma política de desenvolvimento agrícola fora da Europa e dos EUA, uma determinação de procurar alternativas aos combustíveis fósseis que não implique a perda de produção alimentar, os países mais pobres e menos desenvolvidos estão sempre vulneráveis aos movimentos especulativos nos mercados de futuros. Estes, por seu turno, não se vislumbra que venham a ser objecto de uma regulamentação de movimentos de capitais mesmo no contexto de uma grave crise económica mundial como a que atravessamos e cujas consequências ainda não são claras, porque a sua verdadeira amplitude e dimensão ainda não assumiu contornos definidos. Os alimentos são encarados não como um bem de primeira necessidade para as populações, mas como um investimento atractivo e seguro, uma vez que a sua procura aumenta com o aumento da população mundial. Em menos de cinco anos, desde o final de 2003 a Março 2008, segundo a ONU, os fundos de investimento que incluem bens alimentares subiram de 13 mil milhões para 260 mil milhões de dólares, provocando uma subida dos preços. A este movimento especulativo acresce, como se disse, o desvio para a miragem dos biocombustíveis, o aquecimento global. A receita perfeita para a volatilidade de preços nos últimos anos.
Os stocks são a única defesa de que se podem servir os Governos para a protecção das populações mais fragilizadas sem perder de vista o pólo de desenvolvimento económico e de independência decorrentes. E mais uma vez o tempo não é um aliado.