25 de Setembro, 2011
A Grécia não é um caso perdido, mas está a tornar-se um exemplo bem claro dos erros do FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia. Por outro lado, é o primeiro exemplo de que a solidariedade europeia de Jean Monet, Jacques Delors e outros é um sonho morto e enterrado.
Na realidade, não existe, nem nunca existiu, uma crise grega. Existe sim uma dupla crise europeia. A crise de sustentação da Zona Euro (ZE) agarrada a um Pacto de Estabilidade e Crescimento e um Tratado de Maastricht obsoletos. A crise de solidariedade de que tanto se falou, em paralelo com a elaboração do Tratado de Maastricht.
A Europa e os Estados Unidos estão sem soluções dentro do paradigma que assumiram e cuja falência recusam e não querem ou não podem aceitar.
O resto do Mundo não tem necessariamente de ser contagiado pelos países desenvolvidos. Não é uma inevitabilidade nem uma tragédia nos países e regiões que não se deixaram contaminar ou abraçaram incondicionalmente o neoliberalismo.
Os organismos regionais já existentes, SADC, União Africana, OEA, ASEAN, podem perfeitamente servir de ponto de partida para um sistema económico e financeiro capaz de controlar o contágio acelerado pelas receitas do FMI, Banco Mundial, BCE, do sistema bancário já globalizado.
A tarefa é tudo menos fácil. O SADC pode, eventualmente, ser o núcleo duro do desenvolvimento da região subsaariana, lançando as bases para uma maior coesão e influência da União Africana. Se tomarmos como ponto de partida o caso angolano, verificamos que cerca de 30 por cento das trocas comerciais são com a China e o Brasil. Existe um risco de quebra da receita petrolífera directamente proporcional ao abrandamento das economias, em especial dos países desenvolvidos. Ora a China está a tomar medidas, relançando o seu imenso mercado interno, o que faz prever que Pequim pode ficar com menos divisas disponíveis, mas que o seu consumo energético se vai manter. O Brasil continua em crescimento e uma intensificação do mercado latino-americano só irá beneficiar a região, em especial enquanto durar o forró que se verifica nos Estados Unidos e na Europa e se os governantes não caírem nas tentações neoliberais.
A Índia, por seu turno, conhece também um crescimento de dois dígitos e um défice energético considerável. Apesar da rivalidade com a China, as trocas comerciais entre os dois países são importantes e há um comportamento pragmático de ambos os lados.
Se tivermos em conta que a tão celebrada “Primavera Árabe” é uma indeterminação que ninguém sabe levantar, existem boas razões para recear, a prazo, uma maior instabilidade na região que aproveitará aos grandes especuladores do petróleo. A agitação provavelmente irá começar desde já com a alegria de ver o Estado Palestino reconhecido pela Assembleia-Geral da ONU, uma alegria que se irá tornar em indignação, raiva, ódio, etc., quando, no Conselho de Segurança, os Estados Unidos vetarem o acesso da Palestina ao estatuto de País Membro, limitando-se a ficar com o de Estado Não-Membro, conferido pela Assembleia-Geral.
A região do SADC tem tantas necessidades que durante mais de uma década a sua economia podia crescer nos dois dígitos com um plano de desenvolvimento integrado. Não com uma moeda única – a União Europeia já provou os riscos – mas com a queda de barreiras aduaneiras e um planeamento de aquisições cruzadas.
Por outro lado, as movimentações de capitais, designadamente a exportação ou repatriamento de capitais (para os investidos estrangeiros) tem de ser controlado, nada burocratizado, mas tem de ser feito uma verificação, que até já existe na maioria dos países.
Os investidores estrangeiros têm de ser escolhidos e admitidos em função da sua capacidade de investimento, independentemente das bancas nacionais, da sua capacidade de criarem postos de trabalho, de trazerem valor acrescentado e, fundamentalmente, na transferência de tecnologia.
O SADC tem todas as condições para ser esse motor, pelas suas potencialidades, pela sua estabilidade e relações internacionais, designadamente com os BRIC.
Atrás viriam outros países africanos, acabando por conferir, num conjunto coerente e coeso, uma credibilidade que falta à União Africana e que permitiu o que se passou na Líbia, onde foi completamente ignorada.
Face à globalização e ao pensamento dominante que os ricos tentam exportar, existe apenas uma hipótese de escapar ou minimizar o contágio: promover e dinamizar as organizações regionais.