quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Notações minam confiança do consumidor


Benjamim Formigo|
10 de Agosto, 2011

A verdade incontornável na economia, seja nacional ou global, é que como M. De la Palisse muito bem diria: não há desenvolvimento económico se os consumidores não consumirem.
Agora que a declaração incontornável está feita o cronista sente-se bem melhor para continuar a mergulhar nas profundezas insondáveis desta globalização. As agências de "rating", se bem se recordam, qualificavam com a nota AAA (os vinte valores lá do sítio) as mesmíssimas obrigações (afinal hipotecárias baseadas em "sub-primes") que estiveram na origem da crise financeira de 2007, que se prolongou em Setembro de 2008 e levou o Lehman Brothers à falência. Lançando a actual confusão global.
Hoje, curiosamente, a história economista omite o papel dessas agências na crise financeira iniciada em 2007 e que se julgava ter atingido o auge um ano depois. Seria, portanto, duvidoso que elas tivessem adquirido a influência que têm. Não me peçam explicações. A verdade é que em 2008 se acreditava ter atingido um nível crítico e que os Governos, com as intervenções que fizeram, injectando dinheiro no mercado e nos próprios bancos, estavam a conseguir gerir o rebentar da bolha. Longe disso. As agências de "rating" tinham conseguido um feito notável: serem pagas pelos vários Governos para qualificarem as suas dívidas soberanas, um contrato que os Executivos recusavam. Os argumentos eram, porém, convincentes. A banca gastava imenso dinheiro para fazer uma avaliação da solidez dos produtos que estavam no mercado, incluindo os títulos das dívidas soberanas. Como a banca não anda aqui para gastar dinheiro, fazia recair sobre o investidor os custos da avaliação. A pressão sobre os Governos começou a fazer-se por parte do poder financeiro.
O problema é que entre as avaliações que eles hoje fazem e a realidade há um desajustamento considerável, ampliado pela desconfiança que se instalou entre os investidores e, ainda mais, pela posição especuladora dos grandes fundos, sobretudo dos "edge funds" sediados em "off shores".
Ninguém em seu perfeito juízo duvida que os Estados Unidos não possam pagar os seus empréstimos. Tive oportunidade de me referir recentemente aos activos norte-americanos no estrangeiro, que ultrapassam largamente o valor da dívida. Ninguém no seu perfeito juízo duvida também que a situação criada pelas agências de notação levou as maiores economias do mundo a uma situação pré-catastrófica. As dívidas dos Estados não são novas. O factor novo é a especulação que se faz em torno delas. As agências diminuem a notação de um país e os especuladores fazem o resto, arrastando no turbilhão verdadeiros investidores. Claro que, neste admirável mundo novo pós-tatcherismo e reaganomics, nesta economia do Nobel Milton Friedman ou, se quiserem, nesta economia "voodoo", a especulação é uma manobra perfeitamente aceitável. Os valores da última década do século passado e do início deste nada têm a ver com os do pós-guerra.
A herança do pós-guerra foi a construção de uma rede social notável na Europa. Um Continente destruído acabado de sair de uma guerra conseguiu fundos para financiar essa rede – mesmo os Estados que não beneficiaram do "Plano Marshall". Hoje, os Estados não só não conseguem sustentar a rede social como a destroem, privatizam, entre outras coisas. Cortar as despesas tornou-se a regra fundamental na avaliação das agências, que como os bons contabilistas querem livros equilibrados. O equilíbrio dessas contas passa, normalmente, por um aumento de carga fiscal. Mas recordemos que o elevado serviço da dívida é imposto especulativamente com justificação nos "ratings". Temos a velha história da pescadinha de rabo na boca. O Estado não investe para equilibrar as contas. O Estado tem de aumentar os impostos para equilibrar as contas. Como os consumidores não consomem, não só por não terem dinheiro, mas também por serem "bombardeados" directa ou indirectamente, consciente ou inconscientemente, com a ameaça da redução do "rating" soberano. E, se não consomem, o tecido produtivo não vende e não paga impostos, reduzindo a receita fiscal. O mesmo tecido produtivo – os tais empresários mesmo – não conseguem sustentar os postos de trabalho e os Estados não têm dinheiro para pagar subsídios de desemprego. Na Europa, como nos Estados Unidos.
Assim, hoje nem sequer resta aos Governos margem de manobra para oferecer benefícios fiscais aos investidores e aliviar os contribuintes em geral libertando meios para o consumo.
A crise está para durar. Já nem importa muito saber quando vai acabar, é bem mais preocupante saber como vai acabar.