quinta-feira, 14 de julho de 2011

Agências de notação e desacordo europeu


Benjamim Formigo|
14 de Julho, 2011

O euro afunda-se, a União voa, o caminho da discórdia não tem fim e eles discutem. Esta é em síntese a situação da dívida soberana da zona euro (ZE) e a forma como está a ser abordada pelos dirigentes europeus.
O euro afunda-se, a União voa, o caminho da discórdia não tem fim e eles discutem. Esta é em síntese a situação da dívida soberana da zona euro (ZE) e a forma como está a ser abordada pelos dirigentes europeus.
As agências de notação contribuem para a confusão deitando achas na fogueira com os seus exercícios de aprendizes de feiticeiro.
Em crónica anterior já aqui se referiu o papel dessas agências. Nada têm de independentes, são propriedade de grandes instituições financeiras, olham para as dívidas soberanas de um país e calculam, de forma discutível, as possibilidades do país. Ou seja, entregam-se à futurologia que, como todos sabemos é, a par com a astrologia e a quiromancia, uma ciência exacta, como de resto a economia e as finanças.
A Matemática, com todo o seu arsenal, da álgebra à estatística, passando pelo cálculo diferencial e infinitesimal, e a Física, que frequentemente esquecemos, que contém as leis fundamentais dentro das quais tudo é real e fora das quais nada existe, são para os economistas meros instrumentos para a avaliação dos comportamentos exotéricos do Universo e suas origens: as Leis da Dinâmica e Termodinâmica (esta última com especial apetência para definir os parâmetros dentro dos quais se deve reger tudo. Impertinência das impertinências, até a economia e as finanças se regem por estas Leis sem o saberem) são descobertas ultrapassadas de cientistas que não cortavam o cabelo.
A verdade muito simples está no Segundo Princípio da Termodinâmica, que não enuncio na esperança de que os economistas consultem os compêndios de Física e consigam descobrir e aprender alguma coisa. Ora os fundamentalistas do neoliberalismo sustentam que tudo se resolve através do mercado, ou seja, de interesses contraditórios com a sustentabilidade (também está na Física, procurem bem). Para eles, o mercado tudo corrige, é uma espécie de aplicação da Teoria da Evolução de Darwin à economia, às sociedades, aos povos e às nações. Se não têm condições, afundam-se e extinguem-se. Está o caso resolvido.
As agências de notação servem-se pois do arsenal científico atrás exposto para serem o instrumento de choque do neoliberalismo e dos mais fortes e até dos pouco escrupulosos especuladores. Uma coisa é fazer uma fortuna gerindo uma exploração mineira, uma empresa de sucesso, outra bem mais fácil é especulando com as dívidas soberanas. Ora, essa parece ser a função das tais agências, por sinal apenas três que contam, por coincidência, todas americanas.
Os neoliberais e seus serviçais consideram-nas indispensáveis. Hoje, até o presidente do Banco Central Europeu, Jean Claude Trichet, afirma recusar aceitar as suas notações quando houver que decidir pela intervenção na dívida soberana de um Estado Europeu.
O escândalo na Europa surgiu por causa de um pequeno país: Portugal. O novel Governo havia acabado de apresentar ao Parlamento um programa cheio de austeridade, um programa que ia mesmo mais longe que o exigido pelo FMI, o BCE e a Comissão Europeia e aí está a Moody's a baixar o rating da dívida soberana para os níveis de "lixo" e não se ficou por aí, considerando também "lixo" um conjunto de bancos, aparentemente sólidos. A Moody's não esperou pelos primeiros indicadores dos resultados dos testes de stress em curso em toda a UE, não esperou indicadores das medidas assinadas com a "troika". Pensaram lá com os seus botões que "eles não vão cumprir, vão necessitar de mais ajuda, tomem lá uma negativa".
O BCE, a Comissão Europeia e até o FMI, para não falar do próprio Governo português, não acharam graça. Sobretudo porque eles, as agências, recebem dos Estados e das empresas milhares de milhões de euros e dólares para esse trabalho. Pela primeira vez considerada pouco credível a avaliação, as instituições europeias reagiram, enquanto as outras duas agências, a Standard & Poor's e a Finch guardaram para mais tarde e esperam para ver.
Em paralelo com as agências, os europeus também não se conseguem pôr de acordo sobre a intervenção na Grécia.
Os alemães têm uma posição, apoiada pela Holanda e Finlândia, e que passa por um incumprimento antes de ajuda, a França e os restantes países defendem a intervenção rápida e com o apoio da banca privada, que ajudou e bem à situação devedora dos Estados.
A Alemanha está em guerra aberta com o BCE por causa disso, todavia os dirigentes europeus sustentam que vão ter um acordo antes de Setembro.
Enquanto isso, os investidores exigem taxas cada vez mais elevadas para financiarem as dívidas soberanas. Duvidam do tal acordo. Aos primeiros rumores, ou melhor, ao acentuar dos rumores no início desta semana sobre os problemas da Itália e Espanha, com rácios de dívida superiores ao grego, ao português e ao irlandês, os investidores apressaram-se a vender os títulos espanhóis e italianos para comprarem a dívida alemã que se financia hoje com juros ligeiramente superiores a 2,6 por cento. Claro que os juros subiram para a Espanha e a Itália.
O euro deu um trambolhão face ao dólar, descendo de 1.6 para 1.4 num dia. E tudo isto quando Barack Obama luta com a oposição republicana para a introdução de cortes significativos mas também subidas de impostos e retirada de regalias dadas por George W. Bush aos mais favorecidos. Medida que tem obviamente a oposição republicana, mesmo quando o Presidente democrata propõe cortes nos benefícios sociais, caros ao seu partido.
Nos Estados Unidos, o limite do défice federal (que tem de ser aprovado pelo Congresso) foi aumentado uma dezena de vezes nos últimos dez anos. Apesar dos esforços de Barack Obama, o desemprego voltou a subir.
As agências de rating não falam dos Estados Unidos da América.
Na Europa tem de haver um acordo claro e firme sobre o futuro do euro. Não é possível falar em acordos até aos mês de Setembro quando os investidores pensam em termos de horas, de um dia na melhor das hipóteses.
A Europa deve isso ao Mundo. Se resultar na União Europeia, uma das maiores economias mundiais, a experiência pode bem espalhar-se aos produtores de matérias-primas. Seria o paraíso dos especuladores. O fim do euro, com todas as consequências e o ataque voraz às matérias-primas.
Quosque tandem abutere desregulamentação pattiencia nostra?