sábado, 25 de junho de 2011

Uma perigosa deriva europeia que tem de ser recusada


Benjamim Formigo
25 de Junho, 2011

No diário “El Pais” o até recentemente responsável pela política externa da União Europeia, Javier Solana, fez declarações espantosas e perigosas vindas de alguém que quer continuar a ser visto como uma personalidade de prestígio na política europeia.
Javier Solana, numa coluna que mantém no diário espanhol, dissertou sobre a importância estratégica de uma adesão da Turquia à União. Estratégica do ponto de vista económico, estratégica por a mão-de-obra estar a diminuir na Europa com a queda da natalidade. Os argumentos são discutíveis, são os argumentos e os pontos de vista de Solana.
O grave daquele artigo é o facto de conspicuamente omitir qualquer referência à continuada ocupação ilegal de parte de Chipre por militares turcos. Javier Solana omitiu qualquer referência às posições da Comunidade Internacional, adoptadas na ONU, exigindo a retirada militar turca e devolução da soberania ao legítimo Governo do Chipre.
A invasão militar turca de 1974, a pretexto de uma discriminação da comunidade cipriota turca pela maioria ortodoxa grega e de uma tentativa de golpe de Estado por nacionalistas consumava uma aspiração turca desde 1955. A Turquia manobrou antecipadamente separando as duas comunidades, antes da invasão, através da acção de cipriotas turcos que desejavam a união com aquele país. De jure o Governo cipriota detém a soberania sobre toda a ilha, porém uma linha divisória percorre o território dividindo famílias, comunidades e mantendo na Europa a única cidade dividida após a queda do Muro de Berlim: Nicósia.
A Norte dessa linha uma autoproclamada república cipriota turca viu o seu reconhecimento recusado por toda a Comunidade Internacional, à excepção claro dos seus mentores: a Turquia. Essa “linha verde” que divide a ilha marca não só uma separação geográfica e política como social e económica. No Sul, a República de Chipre, sob o Governo internacionalmente reconhecido, se desenvolveu de forma notável, chegando ao ponto de ser um contribuinte líquido da União Europeia - a que aderiu em Maio de 2004. O nível de vida na região não ocupada de Chipre é um dos mais elevados da Europa, a Educação, Saúde, estruturas sociais e relações laborais são exemplos. Como é exemplo a forma de governo quase consensual que os vários partidos mantêm, o que se traduz numa estabilidade do ambiente económico do país.
Na linha de charneira com o Médio Oriente, Chipre tem sido um país de refúgio em vários conflitos. A Igreja Ortodoxa Grega tem promovido com sucesso conferências entre religiões.
Ou seja, Chipre tem seguido a mesma filosofia humanista, de boa vizinhança, coexistência pacífica e de desenvolvimento solidário que presidiu, após a 2ª Guerra Mundial, à fundação dos primórdios do que é hoje a União Europeia. Não pode por isso deixar de ser assustador que um homem com a estatura política e intelectual de Javier Solana tenha ignorado o problema cipriota. Sem o acordo de Chipre a Turquia não pode aderir à União Europeia. Chipre por seu turno gostaria de ver solucionada a retirada das tropas turcas do Norte do seu território para ter a Turquia na União e daí garantias de estabilidade nas relações com o seu vizinho.
Nos últimos anos a Europa tem conhecido muitas derivas de origem financeira. A Europa esqueceu, de facto, o estado social que criou exemplarmente no pós guerra. O poder financeiro tem-se sobreposto até aos interesses económicos. Os interesses estratégicos dos Estados passaram a ser geridos pelo mercado depois obviamente de privatizados. Contudo se na Europa um pequeno grupo entendeu que não podia assistir e manter-se neutro no conflito líbio, não deixa de ser espantoso que se possa ignorar um conflito que envolve um dos Estados membros da União e se arrasta há quase 40 anos.
As palavras de Javier Solana, ou melhor, o silêncio de Solana, fazem coro com o silêncio ruidoso da Europa relativamente à ocupação de Chipre. Se esta é mais uma deriva europeia, sem saída e à custa de princípios, será mais uma deriva a recusar e a Europa tem de repensar o seu papel político, já que o financeiro é pedir aos países emergentes que subsidiem a sua dívida.