terça-feira, 7 de junho de 2011

Portugal e a escolha do Primeiro-Ministro


Benjamim Formigo |
7 de Junho, 2011

Os eleitores portugueses estiveram envolvidos pela primeira vez desde que a ditadura foi derrubada por um golpe militar em 1974, numa não eleição. Por “non sense” que possa parecer, a realidade é que nada de novo se espera do Governo que sair da maioria parlamentar que os eleitores escolheram.
Em boa verdade os eleitores foram apenas escolher o cozinheiro. A ementa e as receitas estão escritas há praticamente um mês pelo FMI, BCE e Comissão Europeia. A orientação da política económica e financeira para Portugal está definida no acordo assinado com o FMI, e as instituições europeias.
Desse acordo decorrem todos os parâmetros que balizam o caminho dos novos governantes portugueses. A política social, a política de saúde, a dimensão do sector empresarial do Estado (mesmo em áreas estratégicas), o investimento público, tudo está condicionado pela austeridade contida no pacote assinado na fronteira do período eleitoral por um Governo cessante. O partido maioritário não conseguiu uma maioria absoluta. Nem isso seria aconselhável num momento em que Portugal necessita de consensos alargados e um Governo com forte e credível apoio parlamentar.
Cavaco Silva, logo após a demissão de José Sócrates disse que esperava um Governo com larga maioria, mas não disse que só dava posse a Executivo suportado por uma forte unidade parlamentar.
A campanha, como afirmou o ex-Presidente Jorge Sampaio, não esclareceu nem debateu seriamente os problemas do país. De facto os políticos aproveitaram o tempo de campanha em recriminações não se vislumbrando como é que de forma credível se podem aliar, mesmo conjunturalmente, excepção feita à maioria do PSD com o CDS. Ignorar as forças à esquerda é um erro grave.
Para José Sócrates a melhor opção foi mesmo demitir-se. Em especial no momento em que o PS necessitou de dar uma imagem de esquerda e teve de recorrer a alguns dos seus militantes influentes e mais conotados com a esquerda do partido pouco dados a compromissos à direita.
Os tempos que se avizinham são de um equilíbrio social muito difícil de gerir. PCP e PS são as forças com mais influência nos sindicatos, já em litígio com o poder socialista, que tende a agravar-se com a coligação à direita. Evitar a instabilidade social tem de ser a prioridade de passos Coelho. De mãos atadas pelo acordo com a “troika”, obrigado a um rigoroso programa de austeridade, o novo Governo não tem margem de manobra. Os despedimentos são inevitáveis, as reduções salariais estão à vista e se de um lado os sindicatos não são parceiros fáceis, uma fatia de empresariado de vistas curtas não facilita a tarefa.
As ultimas analises económicas dizem que se Portugal conseguisse milagrosamente “zerar”a sua dívida, os problemas estruturais da economia levariam à situação presente em 13 anos. Sócrates enfrentou uma campanha violentíssima e acusações de má gestão que não conseguiram apesar de tudo convencer muitos eleitores. Mas na realidade o problema já havia começado muito antes, embora se tenha agravado no segundo mandato socialista.
Cabe agora ao Presidente Cavaco Silva conseguir entre os partidos e dirigentes, com pouca credibilidade junto do eleitorado, um consenso, o tal consenso alargado de que falou e que é de facto absolutamente necessário para conseguir impor as receitas da “troika” numa ementa bastante indigesta.