1 de Junho, 2011
A divisão das responsabilidades é uma prática inaceitavelmente comum e reconhecidamente inútil, tal como a aceitação ou procura de compromissos em acordos que já forma conseguidos. Angola teve já essa amarga experiência.
Os compromissos, da partilha de responsabilidades, não resultou a paz nem evitou o regresso à guerra nos anos 90.
No Sudão existe uma liderança bem diferente. Um presidente acusado de crimes de guerra e genocídio pelo Tribunal Penal Internacional, marginalizado pela União Africana, continua a ridicularizar a Comunidade Internacional e a ameaçar o Sul, essencialmente africano, que em Janeiro, na sequência de um referendo (com que ele concordou, no âmbito de um acordo de paz que assinou) decidiu que se pretendia separar do Norte dominado por muçulmanos.
As fronteiras difusas demarcam, a favor do Sul, uma área rica em petróleo. Abyei, capital de uma zona rica em potencial agrícola e também petrolífero, continua em disputa. Em Abyei o presidente sudanês de Cartum, Omar al-Bashir, bloqueou o referendo deixando uma larga zona de indefinição e instabilidade.
Abyei é uma região fértil na zona limítrofe entre as partes agora em secessão. Habitada em permanência pelo povo dos Ngok Dinka, que ali praticam a agricultura, sazonalmente é invadida por um povo do Norte, os Misserya, árabes que ali trabalham durante determinados períodos do ano.
Omar al-Bashir não só travou o referendo em Abyei como tem provocado a saída dos residentes e a fixação dos Misserya. Uma alteração demográfica com consequência graves se e quando o referendo for avante e houver compromisso quanto aos habitantes reais da região.
As tropas do Norte têm, entretanto, vindo a espalhar-se ao longo da linha de demarcação, ameaçando uma ocupação de toda a região, incluindo as zonas petrolíferas do Sul, que irá declarar formalmente a sua independência em Julho próximo. Os acordos assinados em 2005, pretendendo acabar uma guerra de 22 anos entre muçulmanos do Norte o os povos africanos do Sul, levou anos a aplicar. Só no final do ano passado foi possível realizar um dos referendos previsto – o da secessão do Sul. A recomendação das fronteiras de Abyei pela comissão encarregada de as definir foi recusada pelo presidente sudanês, como várias resoluções nesse sentido, e finalmente o próprio referendo em Abyei, previsto nos acordos que assinou, foi impedido por Cartum. As forças das Nações Unidas têm sido incapazes de proteger as populações. As atenções têm-se centrado no Darfur, a Oeste, para onde têm confluído os esforços conjuntos da ONU e da União Africana. Al-Bashir vê na secessão do Sul um precedente que poderá atingir o Darfur, onde a instabilidade afecta países vizinhos.
A Comunidade Internacional só tem uma saída e necessita da participação activa da China, única potência com influência junto de Omar al-Bashir e dos senhores de Cartum. Acabou o tempo dos compromissos. Seja na renegociação ou reescalonamento de dívidas ou atribuição de ajudas.
Acabou a conciliação que tem passado por um faz de conta que ambos os lados têm responsabilidades.
Chegou o momento de apontar o responsável e exigir-lhe, sem esquecer a retirada de milícias do Darfur, a retirada das tropas da fronteira com o Sul, o cumprimento do referendo em Abyei, sem fraudes demográficas e o respeito pelo resultado dos referendos.
Aceites e cumpridas essas condições e etapas, então a Comunidade Internacional (obviamente a China incluída) encararão o auxílio e o apoio ao Sudão, seja Norte ou Sul. Isto tendo sempre presente a importância da voz da União Africana, que tem cada vez mais de se posicionar diplomática e politicamente como uma força regional. Não são os Estados Unidos ou a União Europeia quem virá resolver os problemas do Continente.
O exemplo recente dado pelos países desenvolvidos do G-8 mostra apenas que se trata de um grupo de países com um enorme PIB, um imenso mercado, uma poderosa força militar dependente dos Estados Unidos e detentora de uma dívida e um défice nunca vistos.
E são esses países que se reivindicam os precursores das reformas económicas. Pretendem ver outros – designadamente Egipto, Tunísia, Iémen, etc... no caminho da globalização económica.
Aos regimes saídos da "Primavera Árabe" propõem apoio económico (50 mil milhões de euros, cerca de 70 mil milhões de dólares) que globalmente é inferior ao empréstimo do FMI e BCE à Grécia. O dinheiro para esse auxílio à estabilidade viria não dos seus cofres mas de organizações e bancos regionais: BEID, BAD, BERD e Banco Islâmico, coordenados pelo Banco Mundial. "Soyons sérieux", diriam os franceses. Credibilidade precisa-se.