As eternas tensões euro americanas na NATO
Benjamim Formigo12 de Junho, 2011
As criticas de Robert Gates são no mínimo absurdas do ponto de vista europeu. A NATO, terminada a Guerra-Fria, dificilmente encontra uma razão para existir que não seja o apoio aos Estados Unidos nas aventuras militares em que gostam de se meter sem consultar ninguém.
Assim é de facto. Os americanos atiraram-se a Saddam Hussein e depois lá veio a história da NATO, arrastando os europeus para a guerra deles e obrigando-os a partilhar despesas. Atiraram-se para o Afeganistão e lá forma os europeus atrás. E falamos apenas dos dois casos mais recentes.
George W. Bush, o filho, decidiu colocar um sistema antimíssil que serve primordialmente os Estados Unidos e vende os seus equipamentos, na Europa. A Rússia considerou esse sistema uma ameaça à sua segurança, mas os americanos mesmo com a oposição da União Europeia lá conseguiram o apoio dos polacos para colocar os seus “gadgets” no país.
No período da Guerra-Fria, a Europa era o teatro avançado de Washington na sua confrontação ideológica. Colocaram material de guerra na Europa quase sem pedirem a autorização dos europeus e nunca se preocuparam com os custos.
Mais recentemente usaram as suas bases na Europa para fazerem escala para Guantánamo, sem darem cavaco aos europeus. Agora que os orçamentos mordem, o secretario cessante da Defesa decidiu criticar violentamente os que lhes têm aturado tudo, ou quase, porque em seu entender não investem o suficiente em Defesa.
A verdade, toda a gente sabe, é que os europeus, em especial a União Europeia, não têm sequer dinheiro para pagar as suas dívidas ou honrar os compromissos comunitários de solidariedade. Que o digam os gregos que se “estão ver mesmo gregos” para conseguirem pagar a chamada ajuda do FMI, BCE etc...A seguir vai ser a vez dos irlandeses se verem gregos e depois de os portugueses, com o chamado auxilio e as medidas draconianas que são exigidas. A Bélgica e a Espanha estão à beira de entrar para o grupo dos que se vão ver gregos. A França só nominalmente está melhor e a Grã Bretanha vai-se safando porque deixou o euro para os “tansos” que caíram na esparrela alemã.
Certo é que a França desencadeou a aventura Líbia, assumindo erradamente que eram “favas contadas” e que o regime ia à vida com meia dúzia de bombas. Os ingleses foram atrás, era mesmo impensável a Velha Albion ficar atrás dos gauleses.
Sem Astérix, Obélix e a poção mágica do druida Panoramix, os americanos lá tiveram de entrar depois do apoio que deram à
Resolução 1973 da ONU. Mas não entraram muito. Uns bombardeamentos no inicio, uma retirada em boa ordem e fica para inglês (e francês) ver o apoio das informações, os aviões de reabastecimentos e a venda do tal material de guerra pré-posicionado que os “States” tinham há muito na Europa.
Robert Gates pode ter razão em muitas coisas. A primeira é que a União Europeia constituiu-se num gigante económico, mas manteve-se militarmente uma minhoca confiando a sua defesa, como sempre o fizera, aos Estados Unidos. Aí Gates tem razão. Mas esqueceu-se o secretário da Defesa que a Europa, como resto do Mundo, está a pagar uma crise financeira desencadeada pelas instituições financeiras norte-americanas.
Os europeus não se entendem quanto à Líbia e muitos por razões politicas mantêm-se de fora. Normal, quando ainda resta aos países um pouco de soberania, irritante aos olhos da sr.ª Merkel, que gostava tanto de mandar na Europa que até consegue. Washington gostava de ter mais influência, mas não consegue, por isso Obama deu, recentemente, tanta importância à Grã Bretanha.
A aventura Líbia tem de ter um ponto final politico e rapidamente. É tempo de Sarkozy abandonar a falsa pose gaulista – a cujos calcanhares nunca conseguirá chegar – e falar com os russos que com maior bom-senso se mantiveram à margem. É altura de chamar a União Africana e remeter a questão às organizações regionais. A UE não é a Polícia do Mundo, não quer sê-lo e mesmo que quisesse não conseguia. O Sr. Sarkozy, mesmo sem Dominique Strauss-Khan, dificilmente ganha as próximas eleições (a menos que os socialistas sejam excessivamente burros). Era bom para a França e também para a Europa que as soluções politicas se substituíssem às tentativas militares.
Quanto às criticas americanas valem o que valem. Contribuem apenas para a relação amor-ódio euro-americana. A guerra das moedas – dólar vs euro – não ajuda a economia europeia, mas também não é evidente que favoreça a americana. E com a dívida da zona euro, Robert Gates bem podia estar calado porque o que o faz falar é também o crescente défice americano. Quanto às razões que possa ter só vale a pena discuti-las em ambiente de crescimento económico.