2 de Junho, 2011
No próximo dia 19 decorrem três meses sobre o início das hostilidades sem que haja um fim à vista. Mais grave, começam a surgir entre políticos e militares dos países envolvidos, designadamente franceses, declarações preocupantemente contraditórias. Enquanto os políticos falam na partida de Kadhafi, os militares dizem que se ele estiver numa instalação bombardeada "paciência" (sic).
Entre os países da NATO, envolvidos ou não nas operações, surgem alertas sobre a interpretação excessivamente lata que a França e a Grã-Bretanha estão a dar à Resolução 1973. Segundo esta, o objectivo é a protecção das populações civis, não a eliminação física do dirigente líbio, nem a destruição das suas forças armadas. Apenas a interdição do espaço aéreo e protecção de populações desarmadas.
Os grupos civis, entretanto, conseguiram armas ligeiras, até alguma artilharia auto-transportada. Agiram desorganizadamente. Criaram um bastião em Bengazi e França e Grã-Bretanha ajudaram a manter esse bastião. Depois, a coberto de interpretações porventura abusivas da R1973, enviaram conselheiros militares para ajudarem a organizar os revoltosos.
Os Estados Unidos retiraram-se, limitando a sua acção ao apoio logístico e às informações. Os outros países envolvidos, para além da França e Grã-Bretanha, limitam as suas operações ao patrulhamento aéreo da chamada zona de exclusão. Os franceses criticam, alegando que a aviação líbia já não voa, e defendendo a reorientação desses meios para o bombardeamento de mais objectivos militares, mesmo que estes não estejam envolvidos em acções contra civis. Até agora não têm tido sucesso.
A realidade é que a situação na Líbia tem de encontrar uma saída diplomática, a menos que a França queira criar na margem Sul do Mediterrâneo uma nova Indochina, de má memória.
Moscovo confirma ter sido abordado por Washington para tentar intermediar o conflito e aproveita para criticar a precipitação de Sarkozy. O papel que os russos poderão desempenhar depende, sobretudo, da maleabilidade de Sarkozy e de David Cameroon. Obama, ao recorrer a Moscovo à margem do G-8, está implicitamente a aceitar diminuir ainda o seu já fraco papel. Mas para que as negociações possam ter sucesso, é necessário que as operações militares não voltem a escalar, no mínimo, e que a primeira exigência não seja a partida de Kadhafi.
Sarkozy tem pela frente eleições e o seu desempenho no Norte de África não pode ser comparado ao de Patton, Montegomery ou Rommel. A sua estratégia atasca no deserto líbio. Cameroon quis uma grande aparição na cena internacional, mas o político neófito em relações internacionais o mais que conseguiu foi não ficar atrás da França.
O Primeiro-Ministro britânico tem, porém, uma vantagem: não tem eleições à porta. Sarkozy vai enfrentar uma campanha eleitoral muito dura por parte dos seus adversários, terá um eleitorado pouco satisfeito e resultados – se a situação de impasse se mantiver – menos que satisfatórios na Líbia.
Estratégia de saída precisa-se com urgência.