6 de Maio, 2011
O exorcismo, porém, não chega para afastar os espíritos que alimentam a violência dos radicais islâmicos. Matou o símbolo mas não destruiu os corpos.
Barak Obama, na mesma semana em que se viu obrigado a responder a perguntas sobre o seu local de nascimento e a perder o seu tempo com intrigas e inutilidades políticas, teve o seu momento de glória e consagrou-se perante o eleitorado. “Yes, we can”. Poucos presidentes dos EUA tiveram decisões tão complicadas pela frente. Esta foi uma decisão que Obama teve de tomar sozinho perante opiniões divergentes no grupo restrito envolvido nas alternativas operacionais.
Os Estados Unidos não avisaram ninguém – nem tinham de o fazer – desta operação cuja finalidade declarada seria capturar o líder da Al Qaeda coisa que objectivamente seria excessivamente arriscado. Nem sequer o Governo ou o Presidente do Paquistão foi informado previamente da acção, o que se compreende quando são conhecidas as cumplicidades entre altos funcionários do aparelho de Estado paquistanês e a Al Qaeda. Para que conste, não existe qualquer disposição no Direito Internacional que legitime a operação militar do fim de semana. Mas ela era inevitável, tão inevitável quanto o secretismo que a rodeou.
A morte de Osama Bin Laden é uma vitória virtual. O símbolo do demónio foi morto, ainda por cima em combate, mas Osama era há muito apenas isso mesmo: um símbolo. O poder operacional estava no seu número dois, o médico egípcio Ayman al-Zawahiri. E a Al Qaeda tornou-se uma espécie de “franchising”, descentralizada em células e micro células independentes, com comandos e objectivos próprios, vagamente ligadas pelo “jihadisno” e a figura simbólica de Osama Bin Laden.
A excepção é talvez o braço da Al Qaeda que opera no Iémen, onde o Presidente, sob forte contestação, é um dos maiores aliados dos EUA na luta contra os militantes islâmicos. Presume-se que Ayman al-Zawahiri e outros importantes dirigentes da Al Qaeda tenham trocado há algum tempo o Afeganistão e o Paquistão pelo Iémen. Daí a importância do actual Presidente. Na Síria, a contestação violenta a Al Assad não acrescenta nada à luta contra o radicalismo islâmico, mesmo sendo Assad apoiado pelo Irão, país onde a Al Qaeda não goza de simpatias.
Ao afirmar que a morte de Osama Bin Laden é virtual pretendo apenas sublinhar que o real – a militância radical islâmica – é o inimigo real que, como se referiu, apenas tinha no saudita uma figura de referência. Mais do que isso, as acções da Al Qaeda no Mundo Árabe, acusando inúmeros mortos entre muçulmanos, e o surgimento de uma geração que contesta Governos em nome da liberdade e não do Islão, fez recuar as simpatias de que a Al Qaeda gozava e os adeptos que conquistava.
Mas é necessário não tomar a nuvem por Juno. A nova geração da contestação não é a população em geral. São na generalidade jovens informados que constituem uma elite que leva atrás de si uma contestação multigeracional. Na sombra ficam os militantes radicais islâmicos e os seus representantes políticos.
O caso do Egipto é paradigmático. A Irmandade Muçulmana mudou publicamente a sua visão política, surgindo nos últimos anos como um grupo moderado. Será? A verdade é que, desde o afastamento de Mubarak, a Irmandade Muçulmana veio crescendo e poderá muito bem ganhar as eleições, o mesmo se aplicando ao seu braço tunisino. Ganhas as eleições nada é menos certo que a Irmandade se mantenha como um movimento moderado e que pretenda um Governo laico. Os seus dirigentes são os mesmos ou nunca repudiaram princípios antigos.
A Al Qaeda deixou de fazer falta para a tomada de poder e por isso a sua influência foi diminuindo, o que não significa que não tenha entrado num estágio muito mais perigoso de profunda clandestinidade.
As suas células existem e estão a digerir a morte do seu ídolo, da sua referência. Osama Bin Laden morto pelos “Seals” americanos em combate sairá um mártir. Ninguém tem muitas dúvidas de que os militantes radicais vão retaliar, nem que a Al Qaeda irá continuar enquanto tiver terreno fértil onde se alimentar. E esse terreno está nas iniquidades globais e em particular no conflito israelo-palestiniano. A solução deste conflito que se estava a desenhar com um entendimento entre a Fatah e o Hamas necessita da colaboração de Israel, o que dificilmente sucederá com o actual Governo conservador.
A Europa e os Estados Unidos reforçaram as medidas de segurança em zonas sensíveis. As células dispersas e autónomas dessa organização descentralizada que é a Al Qaeda dificilmente deixarão passar em claro a morte do seu ícone, independentemente da estratégia do sucessor de Bin Laden.