domingo, 22 de maio de 2011

O final de uma era reformista no FMI


Benjamim Formigo
22 de Maio, 2011

Se o presidente do FMI não foi (ou está a ser) vítima de uma conspiração então aquele que parecia ser um dos homens mais inteligentes da política internacional fez asneira da grossa e tem o cérebro bem abaixo do crânio e mesmo assim conseguiu iludir o mundo sobre as suas capacidades.
Dominique Strauss-Kahn acredita no multilateralismo e nos consensos e praticou-os enquanto “patrão” do FMI. Acreditava que a direcção do Fundo não deveria estar exclusivamente entregue aos países industrializados e promoveu a altos cargos, incluindo no seu gabinete, técnicos de países emergentes. Acreditava na economia europeia, era um dos políticos da geração que fez nascer a moeda única. Recusava o dogmatismo do FMI e as medidas excessivamente duras ou punitivas.  Era uma figura chave no G-8 ou no G-20, que lhe é especialmente caro. A sua ausência vai ser sentida na reunião de 27 de Maio do G-20 em Deauville. Como vai ser sentida a necessidade da sua constante negociação entre a Ásia, a América e a Europa.
Ao tomar posse no FMI herdou um instituição deficitária e com uma imagem desacreditada pelo dogmatismo da sua abordagem standard. Conseguiu o seu equilíbrio financeiro e introduziu novas regras de avaliação e definição da ajuda aos países membros em necessidade.
Em 2010, um pouco de surpresa, abriu algumas posições no FMI aos países emergentes. Brasil, China e Índia ficaram a ganhar com as reformas aumentando as suas quotas nos quadros e que DSK pretendia ver reflectida no Conselho Executivo cujos lugares permanentes estão reservados à Alemanha, Estados Unidos, Grã-bretanha e Japão.
Tudo isto, à primeira vista, são reformas de um homem inteligente, que compreendeu as mudanças e a evolução desde a crise de 2008. Um homem que entendia os riscos de as medidas demasiado austeras poderem originar movimentações sociais graves que poderiam colocar em causa toda a tentativa de estabilização.
O relatório do Departamento de Polícia de Nova Iorque, revelado na Internet, só veio alimentar a tese da conspiração: “às 15h 29m uma empregada do hotel Sofitel, do sexo feminino, raça negra, avisou a polícia de que tinha sido vítima de uma agressão sexual. A agressão ter-se-ia desenrolado no quarto 2806 do hotel. Quando a empregada entrou, o ocupante do quarto, Dominique Strauss-Kahn, caucasiano de 62 anos, saiu nu da casa de banho, manteve-a sobre a cama e inseriu o pénis na boca. De seguida o homem pagou a conta e entrou num avião em JFK onde a polícia o foi buscar”.
Para os norte-americanos, a forma como os franceses, muitos outros europeus e outra Imprensa está a reagir é quase inacreditável. A descrição é insólita e só contribui para admitir uma conspiração que liquidasse politicamente DSK. E conseguiu-o.
As contradições, incluindo as que foram presentes a Tribunal são imensas. A acusação chegou a interrogar-se como DSK tinha três mil dólares para dar pela suite do hotel, argumentou com a sua fuga precipitada – ainda por cima em primeira classe - deixando entender que só por um acaso a polícia soube onde o encontrar. Os argumentos da acusação foram aceites. A saída de DSK sob fiança ou com pulseira electrónica foram inicialmente recusados pela Juiz que avaliou a detenção. Facto relativamente raro num sistema judicial que se baseia no habeas corpus. Para o Tribunal DSK constituía um “risco de fuga” e não há acordo de extradição entre EUA e França.
DSK havia comprado a sua passagem para Paris a 12 de Maio e pago do seu bolso a diferença entre a “business class” (a que tem direito pelo FMI) e a primeira. DSK, meia hora após os alegados incidentes, pagou a sua conta, saiu do hotel e esteve nas proximidades a almoçar com a filha. Finalmente foi ele próprio quem ligou para o hotel pedindo que lhe levassem ao aeroporto telemóvel que esquecera no quarto. Para um homem em fuga, DSK tem uma inteligência inversamente proporcional à que lhe granjeou estatuto à frente do FMI.
Claro que ninguém duvidou que Dominique Strauss-Kahn tinha os dias contados à frente do FMI. Na sexta-feira, após a sua audiência perante o júri de acusação, apresentou ele próprio a sua demissão. A decisão que o júri tomou, colocando-o em residência vigiada, não afecta o desastre que se abateu sobre DSK.
Candidato putativo às eleições presidenciais francesas, o melhor colocado nas sondagens para se tornar no próximo Presidente de França, Dominique Strauss-Kahn já é um cadáver político.
Aqui também surgem outras dúvidas que envolvem um militante do partido de Sarkozy que colocou na rede social Twitter a notícia da detenção de DSK antes de ela ocorrer. A linha cronológica dos acontecimentos será, ao que tudo indica, um dos factores mais fortes da teoria da conspiração, mas também da defesa do ainda “patrão” do FMI.
Dominique Strauss-Kahn não só tinha a viagem prevista há algum tempo, como tinha uma reunião no domingo com a chanceler alemã Ângela Merkel para discutir a questão da dívida grega e a necessidade de reforçar o financiamento à Grécia evitando que o país tivesse de recorrer já para o ano à banca. Reforço a que Merkel se opunha. Como se opunha à entrada dos países emergentes para a chefia do Fundo alegando que isso seria aceitável a médio prazo. A prioridade era “gente experiente” que pudesse gerir a crise da dívida europeia. Na passada segunda-feira deveria ter participado na reunião das Finanças da União Europeia.
As instituições financeiras estavam também na mira de DSK que após a crise de 2008 iniciou uma reestruturação do FMI e pretendia que o Fundo pudesse investigar essas instituições e exigir-lhes os dados que entendesse necessários. Coisa que os Governos até agora não fizeram.
A guerra pela sucessão no FMI já começou e como seria de prever alemães e americanos não prescindem do status quo. As reformas de DSK dificilmente vão sobreviver.
Em síntese, nos Estados Unidos o melhor é não entrar sem testemunhas num elevador.