25 de Maio, 2011
Se os palestinianos pagam a maior parte de factura social e humana da situação de conflito que dura desde 1948, a verdade é que o povo israelita nada mais ganha que uma segurança efémera, relativa e tensa, perdendo no seu potencial de desenvolvimento económico, na sua imagem internacional.
Não menos importante, numa visão de longo prazo, é o papel que Israel não pode assumir no Médio Oriente, se a confiança entre árabes e israelitas se tornasse um dia possível. Esse dia nunca chegará se a questão palestiniana não for resolvida de forma justa e duradoura.
Como se explica a falta de visão de longo prazo de homens reconhecidamente inteligentes? A divisão dos próprios eleitores judeus, a cultura de medo em que vivem e que é não só causada pela bravata árabe, como pela desinformação e apaixonada discussão interna, dificulta uma solução, favorecendo os políticos mais conservadores que não hesitam, como o fez Ariel Sharon, em desencadear uma crise com os palestinianos para ganharem votos.
Se os israelitas vivem nessa divisão os palestinianos sentem o mesmo e pelas mesmas razões. São uma imagem invertida da vivência israelita. Barack Obama apresentou e continua a insistir numa realidade: os recentes acontecimentos no Mundo Árabe podem ser uma oportunidade de mudança da situação na Palestina, muito especialmente porque um dos mais incómodos vizinhos de Israel, a Síria, sente também a onda de instabilidade. A questão é saber para onde irá de facto essa mudança. Daí que, embora a oportunidade exista, se possa entender as reservas israelitas em geral. Contudo, já é menos compreensível que o PM israelita recuse em princípio quaisquer conversações. O Presidente dos Estados Unidos regressou à Resolução 242, de que já quase ninguém falava, regressou às fronteiras de 1967 como ponto de partida para o relançamento do diálogo. Obama deixou, porém, claro aquilo que todos sabemos: existe uma considerável diferença entre o ponto de partida de um processo negocial e o seu conteúdo final. Por isso se trata de um processo negocial. As fronteiras de 1967 são, como disse Netanyahu, indefensáveis. Mas nas declarações o Presidente americano estavam já contempladas modificações. As trocas de terras entre os territórios definidos pela ONU como fronteiras de Israel e do Estado Palestiniano estão ultrapassadas. Pelo tempo, pela situação de facto criada pelo conflito armado e as ocupações ilegais com consequente aumento de colonatos. Obama falou em Estados em territórios contínuos e daí a troca de terras. Mais importante, falou num Estado Palestiniano desmilitarizado. Netanyahu ignorou deliberadamente as contrapartidas colocadas por Obama, ignorou que se trataria de um processo negocial, ignorou a possibilidade de uma resposta ambígua que não fechasse as portas a conversações. Recusou liminarmente o discurso do seu anfitrião apesar de tudo e mesmo quando foi evidente que Obama deixou de lado duas questões essenciais: o estatuto final da cidade de Jerusalém e a questão dos refugiados.
O Hamas reagiu mais discretamente mas também em tom de recusa, esquecendo que o seu radicalismo é o pretexto ideal para menos moderados de Israel. Obama na Europa esta semana procura apoios para que na próxima Assembleia Geral da ONU não ocorra uma votação que pode perfeitamente reconhecer de facto e de jure a existência do Estado Palestiniano. Um reconhecimento que, talvez excepção feita à Grã-Bretanha, os Estados europeus seriam capazes de endossar ou deixar passar com a abstenção. Sobretudo se não tomassem qualquer acção diplomática junto dos seus amigos e aliados. Existe realmente na Assembleia Geral uma maioria capaz de aprovar esse reconhecimento.
Esta semana vai ser crucial para Obama conseguir apoios internacionais, designadamente da União Europeia e do G-8, à sua tentativa de fazer arrancar o processo israelo-palestiniano do impasse em que vive. O auxílio ao Egipto e Tunísia anunciado por Obama vai depender também da contribuição europeia, que já há semanas estuda essa questão como forma de estabilizar o Norte de África e também de travar a imigração ilegal para a União Europeia. A Casa Branca tem evitado condenar Bashir Al-Assad pedindo a sua resignação como fez com Kadhafi. Obama pede-lhe que "lidere a mudança". Como faz no Iémen e no Bahrein mais discretamente. O apoio financeiro que sair do périplo europeu de Obama e da reunião do G-8 ao desenvolvimento no Norte de África e do Médio Oriente será uma importante componente da estabilidade. A outra, talvez mesmo chave, será o posicionamento de Israel, que, queira ou não, é cada vez mais o guardião da chave.
A questão palestiniana não se pode manter no presente impasse. Deixar passar os ventos de mudança e não os tentar influenciar, abandonar aliados ou alienar simpatias é simplesmente perder uma oportunidade de tentar a mudança.
Deixar a situação congelada é arriscar que assim fique mais algumas décadas. Não se defende que existe uma oportunidade real neste momento. Apenas que existe qualquer coisa de diferente que merece ser explorada num momento em que a crise financeira se agrava com as crises políticas e as sociais. Por isso valeria a pena tentar, seja qual for a real motivação de Barack Obama.