24 de Março, 2011
Do ponto de vista estatístico, o edifício de contenção da cuba de um reactor nuclear não resistir a um terramoto era considerado infinitamente pequeno. Tão pequeno, que os técnicos defensores do electro-nuclear o consideravam impossível. Como impossível era, também estatisticamente e também para os mesmos defensores, um acidente que levasse à fusão do núcleo de um reactor de uma central nuclear. Hoje é precisamente esta fusão que se tenta desesperadamente evitar. Não numa só central electro-nuclear mas em pelo menos três. Em Fukushima, no Japão, após um terramoto a que todas e qualquer uma resistiria. Com um tsunami que afectou as infra-estruturas do país. Os desastres naturais sofridos pelo Japão atingiram inevitavelmente a sua economia e até a chamada economia global.
Sendo o Japão o fornecedor de cerca de 20 por cento dos circuitos integrados que servem a indústria em todo o Mundo, é fácil entender que a tal economia global fosse afectada. Acrescentemos aos desastres naturais os desastres ocorridos nas quatro centrais nucleares de Fukushima.
Ao défice energético provocado pelos danos em infra-estruturas somou-se um segundo défice provocado não só pela falta desses quatro centrais mas pela paragem defensiva ordenada nas restantes centrais.
A primeira reacção foi uma queda do yen e depois da bolsa de Tóquio, com repercussões nas bolsas europeias e dos Estados Unidos. O preço do petróleo baixou instantaneamente com a perspectiva de uma redução do crescimento mundial, mas já lá iremos. A segunda reacção dos sacrossantos mercados foi especular com o yen, comprar em baixa nas bolsas as acções de boas empresas japonesas e fazer disparar o valor da moeda japonesa com a perspectiva das necessidades das seguradoras japonesas, ou operando no país, terem de repatriar capitais para pagar indemnizações. O próprio Executivo nipónico reagiu na quinta-feira acusando os especuladores de porem em causa a recuperação japonesa, doente mesmo antes do sismo, do tsunami e dos desastres nucleares. A terceira reacção, em paralelo com a segunda, foi uma subida do preço do crude que tinha recuado. Primeiro o petróleo cai porque não vai haver tanta procura, depois sobe após o recrudescimento dos incidentes no Bahrein e os sempre eternos "receios" dos "investidores" de uma redução na produção do Médio Oriente e Norte de África. Pelo meio ficou uma subida generalizada dos preços dos combustíveis. As refinadoras decidiram aumentar os preços dos produtos refinados uma vez que o Japão iria ter necessidade de mais refinado em virtude das dificuldades das suas refinarias provocadas pelo terramoto e o tsunami.
Só faltou, ou se não faltou foi mantido discreto, um aumento de preços de um conjunto de medicamentos que o Japão irá necessitar. Cinicamente pode-se dizer que o yen caiu e foi comprado em baixa, o papel das boas empresas japonesas caiu e foi comprado em baixa. Quem comprou moeda neste momento já ganhou muito dinheiro. Quem comprou as acções em queda já está a ganhar com a recuperação dos mercados e ainda vai ganhar mais se esperar.
Nem todos sofreram com o desastre japonês.