segunda-feira, 21 de março de 2011

Na Líbia sem estratégia de longo prazo


Benjamim Formigo|
21 de Março, 2011



Aí vamos nós outra vez. A mistificação dos chamados Aliados já começou. Como já começou a agenda pessoal de Nicholas Sarkozy.
Vamos por partes. No sábado, em Paris, por iniciativa do pequeno Sarkozy, um conjunto de países, entre os quais representantes da Liga Árabe e da ONU e a senhora Hillary Clinton, reuniram-se para discutir o passo seguinte à Resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU. Decorria a reunião, quando os participantes tiveram conhecimento que aviões militares franceses haviam já entrado em espaço aéreo líbio e atacado mesmo objectivos supostamente militares.
"La France est lá!" foi a mensagem implícita de Nicholas Sarkozy candidato, até agora, a umas presidenciais complicadas em França. O Presidente francês tem a perfeita noção de que corre o risco de não fazer um segundo septenato. A crise externa liderada pela França que assim se antecipou aos Estados Unidos, à Liga Árabe e a outros Estados e organizações regionais, pode, contudo, sair-lhe cara.
A União Europeia, os Estados Unidos e os restantes participantes no encontro foram colocados perante um facto consumado. A França já estava no terreno, interpretando unilateralmente a Resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU. Uma Resolução que não teve a unanimidade do Conselho e só passou porque a Rússia e a China se abstiveram, tanto no voto, como no uso do seu direito de veto, após longas negociações sobre o texto da proposta.
Mais surpreendido deve ter ficado o representante da União Africana, Jean Ping, que não participou no encontro de Paris (não é evidente que tenha sido convidado) e reunia com parceiros africanos, na Mauritânia, para discutir uma mediação que pusesse pacificamente termo ao conflito.
No final do encontro já se falava em "aliados", referindo-se a uma força conjunta para impor uma solução militar externa na Líbia. Mas quem são os "aliados"? Os Estados Unidos claro que não estão de fora, mau grado a relutância inicial de Barak Obama. A Grã-Bretanha, colocada pela França perante um facto consumado, não pode ficar de fora, nem perder o seu peso na cena internacional. Os países árabes, leia-se o Egipto e a Tunísia, não parecem muito dispostos a fazer mais do que autorizar o uso dos seus territórios como base para a aviação "aliada" que vai aplicar a interdição do espaço aéreo líbio. Primeira mistificação: não existem "aliados", mas a imprensa internacional começa já a pegar no termo.
Sarkozy, porém, já em 10 de Março surpreendera os parceiros europeus, com o reconhecimento da oposição a Kadafi como "único e legítimo representante do povo líbio". O incómodo foi grande. Sobretudo porque não existe um povo líbio, mas tribos e clãs únicos, aliados conjunturais, inimigos ou adversários, cujas contradições têm sido geridas pelo dirigente líbio.
Segunda mistificação: sem uma forte participação árabe, como conseguiu George Bush (pai) na primeira Guerra do Golfo, em 1990/1991, as acções militares contra Kadafi podem facilmente ser encaradas como uma ingerência dos "infiéis" e espalhar-se pelo Mundo Árabe, ou povos árabes, a ideia de mais uma "cruzada".
A acção isolada de George Bush (filho), em 2003, acabou por se tornar um pesadelo para os americanos e os aliados europeus arrastados para o Iraque e o Afeganistão. Um exemplo que Nicholas Sarkozy esqueceu. Como esqueceu a abstenção do Brasil, Índia, Alemanha, China e Rússia no Conselho de Segurança. A abstenção alemã, que traduziu o compromisso de Ângela Merkel entre a sua discordância de uma acção militar e o não abandono de Paris, enfureceu os franceses, incluindo a imprensa moderada. De repente, a questão líbia tornou-se como que uma causa nacional francesa. Falsamente.
Mais grave é que a aplicação da R 1973 tenha começado precipitadamente. Sem uma estratégia de longo prazo, sem uma ponte de diálogo, quase como a intervenção de Bush (filho) no Iraque visando derrubar Saddam Hussein.
Mais grave, também, porque a R 1973 parece, e de facto está a tornar-se, cobertura de uma politica de dois pesos e duas medidas. O Bahrein, a Arábia Saudita o Iémen e Israel são ignorados nessa Resolução. Por razões óbvias: os interesses norte-americanos. Israel é o seu principal aliado no Médio Oriente, o Bahrein estratégico para o estacionamento de forças americanas na região, o Iémen um aliado no combate à Al Qaeda e a Arábia Saudita um centro de produção de petróleo fulcral aos interesses dos Estados Unidos, da França e da Grã-Bretanha.
Finalmente, e porque o espaço de um jornal assim o impõe, vem a questão de fundo: qual a estratégia de longo prazo? Não há. O objectivo da R 1973 era pôr termo ao conflito e assegurar uma transição política, pacífica e ordenada. Ora para isso havia duas possibilidades. Um alinhamento decisivo ao lado dos contestatários, implicando o envolvimento de tropas no terreno, o envolvimento de tropas árabes sobretudo, a obtenção de uma posição de força e depois negociações. Mas essa opção era aventureira, pois nada garante que tivesse uma solução a curto prazo, e prolongava, como no Iraque ou no Afeganistão, um empenhamento militar de longo prazo.
A outra possibilidade, bem mais difícil, mas realista, que a Resolução aprovada pelo CS/ONU não teve em conta, foi o envio de uma missão de mediação constituída por elementos prestigiados da Liga Árabe e da União Africana, mandatada pela ONU e apoiada pela Comunidade Internacional para obter uma saída negociada. Tinha, obviamente, de se considerar o envio de uma força de manutenção de paz com a missão de estabelecer uma zona tampão (com um mandato ao abrigo do Capítulo VII da Carta das Nações Unidas) para assegurar uma transição pacífica.
A luta pela supremacia entre as várias facções rivais agora unidas na contestação do actual dirigente líbio surgirá seguramente se se verificar um vazio de poder propiciado pela precipitação a que estamos a assistir.
A segunda hipótese traduzia uma estratégia de longo prazo, uma coerência de pensamento e reforçava a importância das mediações regionais, mesmo que apoiadas pela ONU.
Sem estratégia de longo prazo, a Líbia arrisca-se a tornar-se mais um Iraque provocado pela presunção e auto-suficiência do grupo que pensa mandar no Mundo.