quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Uma vitória diminuída pela abstenção


Benjamim Formigo|
27 de Janeiro, 2011


Antes que o leitor inicie a sua leitura é importante esclarecer que o meu candidato era Manuel Alegre de cuja Comissão de Honra fiz parte em coerência com a posição que assumi há cinco anos. Isso não me impede de olhar friamente para o desfecho das eleições presidenciais portuguesas.
A reeleição do Presidente Aníbal Cavaco Silva não constituiu uma surpresa. Desde o 25 de Abril de 1974 todos os Presidentes têm garantido a sua reeleição. Por um lado a vontade natural de continuidade, por outro, as poucas razões que se colocavam ao eleitorado para mudar de Presidente.
Na verdade desde que os partidos portugueses, descontentes com a iniciativa do Presidente Ramalho Eanes – quanto a mim um bom Presidente, mesmo que politicamente não estivéssemos próximos – decidiram uma alteração constitucional que transformou um regime semipresidencialista num regime parlamentar, o centro de gravidade passou do Palácio Presidencial de Belém para o palácio de São Bento, sede do Parlamento e simbolicamente do Governo.
Mário Soares não gostava de Eanes e a independência do general incomodava a partidocracia. Ramalho Eanes foi reeleito pelos seus próprios méritos que incluíam a sua actividade executiva. Os Presidentes que se lhe seguiram tiveram e têm os poderes muito limitados, quase remetidos a uma figura simbólica do Estado Português. Não há pois muito que criticar num Presidente sem funções executivas mas com importantes poderes de conciliador e promotor de iniciativas de impacto nacional entre os agentes partidários.
O que se disse anteriormente não pretende retirar qualquer mérito à vitória de Cavaco Silva. A questão importante e que deixa um travo amargo nesta vitória do Presidente é a abstenção que ocorreu. A verdade é que nenhum dos candidatos e em particular o Presidente cessante e candidato (com maior conhecimento das situações e interferência nelas) foram incapazes de motivar o eleitorado num momento em que o país vive uma das sua mais graves crises, económica mas também politica, pelo falta de dirigentes carismáticos capazes de galvanizar os contribuintes.
No seu discurso de vitória, conhecidos os resultados, Cavaco Silva não soube ser magnânimo. Foi amargo e crítico para os seus opositores. Eventualmente com alguma razão. Mas não era a ocasião de o ser e podia deixar esse ónus ao seu director de campanha.
A campanha tornou-se amarga com as alegações lançadas pelos "Media" em trono da participação do candidato Cavaco Silva no capital da SLN, proprietária do Banco Português de Negócios que teve de ser intervencionado pelo Estado que injectou milhares de milhões de euros dos contribuintes para salva o instituição. Manuel Alegre muito embora tivesse numa primeira fase resistido, acabou por se ver quase só na não inquirição desse negócio. E fê-lo no debate entre ele e o candidato Cavaco. As respostas nunca surgiram. Nem no debate nem fora dele. Estavam criadas todas as condições para as argumentações dos "Media" e as campanhas na Internet.
Cavaco Silva não soube ou não quis responder. Homem introvertido e na realidade conciliador, Cavaco reagiu da pior forma, não por ser intrinsecamente arrogante mas por ser incapaz de se exprimir com a "souplesse" que o momento exigia.
O eleitorado reagiu negativamente. Mas reagiu a muito mais. A votação de um "outsider", Fernando Nobre, foi uma demonstração indesmentível da recusa institucional. A abstenção pode ser lida da forma que quisermos. Será abusivo atribuí-la a essa recusa institucional mas não é desmentível que também se deveu a essa recusa.
Num momento em que Portugal mais necessitava de um Presidente forte o mais que conseguiu foi reeleger uma figura que não se pode afirmar "Presidente de todos os portugueses", embora o tenha tentado, porque na verdade, abstenção incluída, quase 75 por cento dos portugueses não votaram nele.
Nada retira a Manuel Alegre a incapacidade de conseguir ultrapassar um apoio de um PS desgastado e dividido. Merece destaque Fernando Nobre, que sem máquinas partidárias atrás de si conseguiu um honroso terceiro lugar e eventualmente travar a abstenção com os votos que chamou a si.
Nada, finalmente, retira a legitimidade de Cavaco Silva como Presidente da República.