segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Uma Alemanha acima de qualquer suspeita


Benjamim Formigo|
17 de Janeiro, 2011


No passado século o Mundo pagou o preço da ambição expansionista alemã por várias vezes.
Na Primeira Grande Guerra, em 1914-1918, pagou a Europa a destruição e a reconstrução. Na Segunda Guerra Mundial, 1939–1945, a Europa, o Norte de África e por esse Mundo fora, o expansionismo de Hitler custou bem caro, em vidas humanas e em bens materiais.
O Mundo, em particular os Estados Unidos, pagou a reconstrução alemã e o realçamento da economia do país.
Com a queda do Muro de Berlim, e a unificação da Alemanha, formalizada a 3 de Outubro de 1990, o Mundo, directamente a Comunidade Europeia e os Estados Unidos, voltou a pagar os custos da unificação. Os principais pagadores foram sem dúvida os europeus inseridos na economia comunitária.
Para trás ficaram eventualmente perdoadas mas não esquecidas as guerras que arrasaram a Europa, entraram pela África e tentaram redesenhar as suas fronteiras, e deixaram entre o povo judeu uma recordação que, essa sim, nunca será perdoada: o holocausto.
Recordação que determinou nos judeus uma decisão de sobrevivência que hoje alimenta as graves injustiças ao Povo Palestiniano. Sem esquecer a este propósito que quando da criação do Estado de Israel resquícios de organizações nazis sobreviventes contribuíram para a animosidade árabe face ao novo Estado. Seria simplista esquecer a resistência britânica em conceder a libertação da Palestina em moldes que prevenissem os problemas que hoje subsistem e outros factores. Mas seria exaustivo e mais uma vez o espaço de um jornal determina que fiquem lacunas neste ensaio de enquadramento.
Se os portugueses têm um antigo ditado, porventura exagerado, que "de Espanha nem bom vento nem bom casamento" os franceses e o resto da Europa podem sentir o mesmo relativamente à Alemanha, em especial os franceses.
François Mauriarc, romancista, jornalista, Prémio Nobel de literatura em 1952, escreveu na sua coluna "bloc-note" do "l'Express": "J'aime tellement l'Allemagne que je préfère qu'il y en ait deux!". Para François Mauriarc a existência de duas Alemanhas, ou seja, da Alemanha dividida no pós-guerra, era uma garantia de segurança na Europa, e para a França em particular.
É porém da mais elementar justiça salientar a importância da República Federal Alemã na construção europeia através de homens como Konrad Adenauer, Helmut Schmidt, Helmut Kohl e o incompreensivelmente esquecido ministro dos Estrangeiros de Kohl, Hans-Dietrich Genscher. Estadistas que colaboraram intimamente com Charles de Gaulle, Valéry Giscard d’Estaing e François Mitterrand. Foi o tempo áureo da construção europeia e dos projectos da Europa solidária de Jean Monet ou Jacques Delors. Solidária entre si e consequentemente forte para ser solidária com o Terceiro Mundo. Foi o tempo do entusiasmo pelo investimento na periferia europeia, na ajuda da desenvolvimento. Não exclusivamente por razões altruístas, mas porque promover o desenvolvimento no Terceiro Mundo era investir na expansão da economia europeia e na segurança da Comunidade Europeia.
Com o Tratado de Maastricht, o Pacto de Estabilidade e Crescimento e o desaparecimento de uma geração marcada pelo pós-guerra na Europa, tudo mudou. A Europa social foi atirada pela janela, com a ajuda da hoje baronesa Thatcher, Ronald Reagan e o novo poder alemão.
Bem cedo, a Alemanha, já unificada, esqueceu a sua  meia promessa de manter a capital e o Governo em Bona. A quadriga da Porta de Bradenburg, no cruzamento da Unter den Linden e a Ebertstraßeo, antiga RDA. Uma Europa Central sob controlo da economia e finança alemãs foi mais forte. A capital mudou-se para Berlim e com ela o Bundestag (parlamento). Pouco importa que tenha sido mandada construir como um símbolo de paz por Frederico II da Prússia. No seu topo, uma quadriga conduzida pela deusa da paz faria crer que após Frederico II da Prússia a Alemanha não teria aspirações expansionistas. Nada mais falso e a quadriga foi erroneamente vista como o movimento alemão para Leste.
Com Maastricht, a Alemanha abria mão do seu Deutsh Mark em troca do Euro. Mas o Banco Central Europeu seria e é gerido sob o modelo do Bundesbank (banco central alemão). O eixo Paris-Bona, que durante o pós-guerra e com homens como Adenauer e De Gaulle, Giscard d'Estaing e Schmidt, Mitterrand e Kohl, permitiu o desenvolvimento da Comunidade Europeia e o empenhamento comunitário no Mundo, acabou.
Ângela Merkel controla com mão de ferro a economia europeia, ou pretende. Nicolas Sarkozy, o Presidente francês sem memórias da França ocupada, orbita em torno da senhora Merkel esquecendo a História. Como no passado, Sarkozy vira-se para a Grã-Bretanha pedindo-lhe auxilio para o Euro ou Obama para que compareça no G-8. Alinha com Ângela Merkel no ataque aos países periféricos, como a Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha, convencido de que no papel do Governo de Vichy beneficiará face ao seu vizinho huno.
A realidade, porém, é bem diferente. Os especuladores não deixam o euro. Os países periféricos são o elo mais fraco da cadeia. Quando o momento chegar, se necessário for a Alemanha não hesitará em agir só, determinada como está em recuperar a sua economia, a menos afectada da união Europeia. Ao contrário do que sucedeu na Segunda Guerra Mundial, a França não será socorrida pela Grã-Bretanha ou os Estados Unidos. Ambos a braços com os seus próprios graves problemas.
A economia mundial está numa crise sem precedentes. A recuperação depende de dois gigantes: EUA e UE. Mas se os EUA não conseguem sozinhos relançar a economia mundial, o contravapor determinado pela senhora Merkel e a conivência de Sarkozy não serão os colaboradores necessários.
A União Europeia, em particular a Alemanha, agarra-se ao Tratado de Maastricht e ao seu Pacto de Estabilidade e Crescimento. Milton Friedman continua a ser preferido a Keynes num momento em que Keynes parece bem estar na ordem do dia. A inflação não é uma ameaça, a deflação e o desemprego são-no.
Se a Europa do euro continua o caminho alemão, os próprios EUA não têm parceiro num "tandem" de desenvolvimento. Mais grave é que a retracção de consumo europeu e norte-americano estão já a afectar as economias emergentes, os países do Terceiro Mundo em geral.
O paradigma esgotou-se e a Alemanha de Merkel nem quer ouvir falar de um substituto. Será porventura injusto assacar todas as responsabilidades à senhora Ângela Merkel, mas falta-lhe o carisma de Kohl, Schmidt ou Adenauer. Faltam-lhe os parceiros franceses ou europeus, e os Estados Unidos enfrentam uma grave crise.
Barak Obama não hesitou em mudanças que lhe irão custar caro. A União Europeia não quer ouvir falar de mudanças. Esperam que a China venha pagar a crise com os seus excedentes, mas nem o novo gigante o consegue se o mercado for "Deus ex machina", se a desregulamentação continuar a ditar leis e as agências de notação continuarem a assumir esse inacreditável papel de Todo-Poderoso da finança sempre ao lado dos fortes e pagos por estes.
Tal como escrevi nesta coluna em artigo anterior: líderes com imaginação e determinação, precisam-se. O Mundo agradece.