terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Fundamentalistas espreitam a crise na Tunísia


Benjamim Formigo|
18 de Janeiro, 2011


Aquilo que se temia fosse o pior desfecho para a crise interna que nas últimas duas semanas assolaram a Tunísia acabou por se confirmar: o presidente, Ben Ali, foi obrigado a sair do país à pressa entregando o poder a quem primeiro dele se aproximou. Neste caso um incrédulo e muito contestado primeiro-ministro.
Na verdade a forma como Ben Ali abandonou o poder que manteve nos últimos 23 anos revela toda a sua incompetência para compreender aquilo que o povo verdadeiramente reivindicava nas ruas: a garantia de aplicação de uma nova política social.
O mais surrealista de tudo é que, um dos principais alvos da ira popular não era propriamente o presidente da República mas o seu primeiro-ministro, precisamente o homem a quem, trémulo, temeroso e apressado, Ben Ali decidiu entregar o poder.
Num raro rasgo de inteligência política (e também para tentar salvar a própria pele), o incrédulo primeiro-ministro tratou de se antecipar à fúria popular e entregou esse mesmo poder ao presidente da Assembleia, o qual, por sua vez e para desfazer dúvidas, anunciou de imediato que iria accionar os mecanismos previstos na Constituição do país para a realização de eleições no prazo de 60 dias.
Para o mundo árabe o desfecho privisório do resultado do levantamento popular carrega dois problemas fundamentais. O primeiro, não mais nem menos grave que o segundo, é a possibilidade de vir a ocorrer um efeito de contágio noutros países onde as governações são igualmente alvo de muita contestação, como o Egipto e a Argélia.
O segundo é que a alternativa aos actuais poderes, tanto na Tunísia como nos dois outros países referenciados, é a entrada em acção do fundamentalismo islâmico que nunca necessita de eleições para assumir o poder, bastando-lhe ficar à espreita para apelar aos sentimentos religiosos das populações oferecendo-lhes um "paraíso terrestre" que todos sabemos não existir.
O mundo ocidental, raramente atento às particularidades do mundo árabe, tenta sempre aplicar as mesmas receitas com que vai curando as maleitas resultantes de crises internas esquecendo-se que se tratam de realidades opostas.
Enquanto na esmagadora maioria dos países ocidentais as diferenças de opinião são debatidas em fóruns próprios, como os parlamentos e as páginas dos jornais, no mundo árabe essas divergências são quase sempre resolvidos através do recurso à violência, seja à bala, ao cacetete ou à bomba.
E, ao longo de 23 anos, foi à cacetada, à bala e à bomba que o agora fugitivo presidente da Tunísia conseguiu impedir que o fundamentalismo islâmico vivesse dias de felicidade num país que, pela tranquilidade assim conseguida, fazia as delícias de turistas ocidentais que, também eles, foram agora obrigados a abandonar o país às pressas não sabendo sequer se algum dia lá podem voltar.
Essa postura de Ben Ali, muitas vezes alvo de duras críticas por parte do Ocidente, custou-lhe numerosos inimigos internos que o acusavam, precisamente, de estar a praticar uma política que agradava às grandes potências e retirava à nação árabe a sua própria identidade.
É precisamente na busca e na afirmação dessa "identidade árabe" que os fundamentalistas islâmicos baseiam a sua propaganda espreitando e aproveitando todas as oportunidades para se apoderarem do poder sendo o Iraque um dos mais pragamáticos exemplos desta realidade.
Desta forma a contestação popular que nas últimas semanas manchou de sangue as ruas da Tunísia, desencadeada por pessoas que estavam cheias de boa vontade para ver melhoradas as suas condições de vida e apoiada pelos principais países ocidentais, corre sérios riscos de se transformar na via para a instalação no poder de um regime fundamentalista.
Neste momento e ainda na ressaca dos mais recentes acontecimentos, ninguém na Tunísia acredita no sucesso de um processo eleitoral que terá que decorrer no prazo de 60 dias. Este cepticismo resulta da pouca experiência dos partidos políticos na participação em sufrágios e, igualmente, do facto da camada mais pobre da população e que esteve na origem do início das contestações estar particularmente vulnerável perante os apelos que lhes vierem a ser feitos pelos clérigos islâmicos que sempre mantiveram com Ben Ali uma relação de mera conveniência.
A procura de uma solução não é tarefa fácil e Ben Ali era mais um problema do que uma solução para o conflito tunisino. As coisas ainda estão frescas, mas sem uma vigorosa ajuda internacional e sem a necessária maturidade política dos seus principais líderes a Tunísia pode vir a conhecer momentos de cólera que a transformarão de um quase paraíso terrestre num autêntico inferno.
O que falta agora saber é se a classe política tunisina, que no tempo de Ben Ali nunca teve grandes oportunidades para se mostrar tem a maturidade suficiente para evitar que os fundamentalistas cheguem ao poder. Disso depende o futuro da Tunísia e, quem sabe, também do Egipto e da Argélia.