sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

As dúvidas do referendo em Cartum


Benjamim Formigo
7 de Janeiro, 2011


A escassos dias do início do processo eleitoral que vai determinar o futuro do Sul do Sudão as dúvidas subsistem em paralelo com a indiferença do Comunidade Internacional.
O referendo aberto de 9 a 15 de Janeiro vai consagrar, ao que se espera, a secessão do Sul, essencialmente cristão, face ao Norte predominantemente muçulmano.
As questões de fundo porém permanecem em aberto.
O acordo sobre as fronteiras é demasiado fluido, o entendimento sobre as áreas ricas em petróleo e a partilha desigual com o Norte também não é animador.
No Darfur os ataques recomeçaram pouco antes do Natal com incursões de milícias treinadas e equipadas pelo Governo de Kartum.
As forças conjuntas da Organização das Nações Unidas e da União Africana não chegam para pôr termo aos confrontos, mesmo depois do acordo de paz entre Norte e Sul e de conversações e acordos entre grupos do Sul, alguns criados por Kartum, armados e equipados pelo Governo do Sudão.
O resultado que se espera do referendo é a secessão.
O Sul tem-se vindo a armar, ilegalmente, mas com alguma justificação dado que o seu Governo putativo tem de enfrentar dificuldades desde os primeiros dias.
O Presidente sudanês, Omar al Bashir garante que vai respeitar o resultado, mesmo que ele confirme a secessão.
No entanto, al Bashir não tem uma grande credibilidade.
Com um mandado de captura do Tribunal Penal Internacional, desde 4 de Março de 2009, que o acusa de genocídio, crimes contra a Humanidade e crimes de guerra, o Presidente sudanês disse domingo, numa visita pelo Sul, que uma vez consumada a divisão impõe a Lei Islâmica no Norte.
O escrutínio de 9 a 15 de Janeiro é uma forma da Comunidade Internacional tranquilizar a sua consciência deixando por resolver ou pelo menos sem uma solução bem clara e definida questões – as fronteiras e o petróleo - que podem lançar uma nova guerra entre Norte e Sul.
Sem uma solução sólida fica também o Darfur onde as milícias e os exércitos privados que recusaram as soluções de paz continuam a agir com o beneplácito do Norte.
As armas adquiridas pelo Sul, que já tem um Governo próprio, justificam-se mas levantam mais receios.
O referendo pode ser realmente o final de um processo e o início de uma nova época. Resta saber se será uma época de paz, prosperidade e reconstrução ou se o Sul vai regredir para a guerra e o Norte toma conta dos consideráveis recursos naturais do Sul de que aparentemente está disposto a abrir mão.