quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Obama evolui na continuidade de Bush


Benjamim Formigo |
27 de Outubro, 2010

Barack Obama foi eleito na base da mudança. O presidente norte-americano, a escassas semanas das eleições intercalares, não parece contudo diferenciar-se do seu antecessor George W. Bush, particularmente em política externa. Mais grave, o presidente transmite a ideia de que não tem total controlo da comunidade de informações civil ou militar.
A recente divulgação de 391 mil documentos sobre a guerra no Iraque mostra um inaceitável comportamento por parte dos militares, americanos sobretudo, mas também britânicos, fechando os olhos às atrocidades cometidas pelas autoridades iraquianas contra prisioneiros que lhe são entregues ou que consegue fazer.
Esta é a segunda vez que a mesma organização, a WikiLeaks, que faz uso exclusivo da internet, revela documentos secretos do Pentágono – e também do Departamento de Estado, nada menos do que 260 mil telegramas trocados entre embaixadas americanas no Médio Oriente. Anteriormente divulgou um número bem menor de documentos sobre a actividade militar no Afeganistão, cometendo o erro ético de publicar os nomes dos informadores e agentes ligados aos serviços de informação norte-americanos no país. Ficou porém bem claro dessa divulgação o envolvimento conhecido mas não documentado dos serviços secretos paquistaneses com os talibãs no Afeganistão e o envolvimento e apoio de forças iranianas nos dois conflitos.
Dos documentos decorre também que a guerra no Iraque está longe do final e as empresas privadas estão a aumentar os seus efectivos substituindo os militares nas suas tarefas. Chamando os bois pelos nomes, George W. Bush abriu as portas à contratação de mercenários por empresas de segurança privadas e Barack Obama não fechou as portas a essa política nem se conhecem medidas para que os seus comandos mantivessem a acção das forças regulares à margem dos mercenários. Pelo contrário, entregou o comando das tropas ao general que promoveu o uso de empresas privadas na recolha de informações e em acções ditas de segurança. Os documentos revelados durante a semana passada deixam claro que se trata de acções de combate, sugerindo mesmo que o seu número ultrapassa os efectivos norte-americanos.
Dois países referência na defesa dos direitos, liberdades e garantias, ficaram em causa: Estados Unidos e a Grã-Bretanha. Porém, as reacções foram diversas. Enquanto Washington condenava e dirigia toda a sua retórica contra o jornalista australiano que gere o site, em Londres o sucessor de Tony Blair manifestava a maior preocupação pelo conteúdo dos documentos.
O relator especial da ONU para a investigação da tortura, Manred Nowak, pediu directamente a Barack Obama a abertura de um inquérito às alegações contidas nos documentos, recordando-lhe que havia chegado ao poder com a promessa de mudança. Em contraponto, o Pentágono fez saber que preferia que os jornais não publicassem matéria classificada. A Amnistia Internacional acusou as tropas americanas de “graves violações” do Direito Internacional por os comandos militares americanos entregarem prisioneiros às forças iraquianas que sabiam de antemão que os iriam torturar. Mas o porta-voz do Departamento de Defesa, Geoff Morrell, optou por condenar “veementemente” a WikiLeaks e a publicação dos documentos pelos jornais. Morrell acrescentou mesmo que estes “serviriam os terroristas” .  Sabe-se finalmente que entre Janeiro de 2004 e Agosto de 2008, em plena ocupação do Iraque, 63 mil civis foram mortos. Os documentos relatam inúmeros casos de violência e de execuções sumárias pelos militares que sucederam ao exército de Saddam Hussein, mas também de “mais de 300 casos (não especificados) cometidos pelas forças da coligação”.
Julian Assange, o jornalista australiano que gere o site, vive uma fuga continuada. Na Suécia, onde pensava encontrar abrigo, foi acusado de violação de duas mulheres e teve de abandonar o país. Partiu de Estocolmo para Londres, via Berlim, num voo quase vazio. A sua bagagem extraviou-se e nunca mais apareceu.
Em Washington, o homem que alegadamente lhe deu acesso aos documentos, um funcionário da informação militar, Bradley Manning, encontra-se detido em Quântico à guarda do FBI.
Nas páginas dos jornais multiplicam-se as notícias de deserções na sua organização.
Em toda esta questão, à parte de uma declaração – obviamente condenatória - de Hillary Clinton, um profundo silêncio da Casa Branca, onde Barack Obama, talvez receando parecer fraco, continua a evoluir na continuidade de George W. Bush.