11 de Outubro, 2010
Com o euro em alta, poder-se-ia pensar que a Europa estaria a aumentar o seu poder de importação de bens produzidos pelas economias emergentes. Nada mais falso. A Europa não consome os bens que produz, passou a importar o indispensável mesmo, e só pensa numa forma de aumentar as suas exportações para compensar as quebras crescentes e contínuas do seu mercado interno. A Velha Senhora está doente, o seu estado de saúde agrava-se por causa dos seus médicos. Qualquer auxílio é inútil se os próprios médicos não estiverem na disposição de ajudar o doente.
Em Julho/Agosto de 1998 a crise social europeia estava à vista. O desemprego afectava 12 por cento da população activa - 18 milhões de pessoas - e esperava-se que nos três anos seguintes o número aumentasse em mais meio milhão. O alerta vinha de vários institutos de pesquisa europeus.
Partindo de Portugal, verificamos que com mais de 400 mil desempregados foram retirados ao consumo 400 milhões de euros. Deixaram de ser consumidores e de poder cumprir as suas obrigações financeiras. Em contrapartida, o Estado perde por via fiscal os seus impostos e o seu consumo. Passa a ter de despender em subsídios de desemprego 200 milhões de euros. Em Espanha, o número de desempregados é incomensuravelmente superior. Façamos as mesmas contas em França ou a qualquer outro estado da UE e da ZE. A massa monetária disponível para o consumo atinge valores muito superiores ao PIB de alguns países desenvolvidos. As receitas dos Estados caíram.
O mais curioso é que todos conhecem a razão e a origem da doença: o Tratado de Maastricht e o Pacto de Estabilidade e Crescimento, a desregulamentação da actividade financeira. O défice de democracia nos órgãos dirigentes da Europa, da Comissão Europeia ao Banco Central Europeu tem propiciado as manipulações dos dois organismos de cúpula por interesses, em particular os financeiros.
O Banco Central Europeu, ao contrário do seu congénere americano (FED), não responde perante o poder político eleito. O mesmo se pode dizer da Comissão Europeia. O controlo do Parlamento Europeu sobre a CE também é relativo e diminuto.
Já não chega rever as regras. A Europa Comunitária tem de ser refundada para sobreviver como entidade colectiva que muito tem ainda a dar e de que o resto do Mundo precisa.
Barack Obama é criticado, como referi há semanas nestas páginas. Todavia ninguém é capaz de apontar uma medida do Presidente que lhe tenha causado prejuízos ou perdas de receitas. Os Estados Unidos estão a mudar. A Europa não.
A visão de Jean Monet precisa-se, e com urgência.