segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Nova crise económica ou a ilusória recuperação


Benjamim Formigo |
30 de Agosto, 2010


Para a visão clássica dos analistas económicos, uma nova crise está a desenhar-se já e é inevitável que até ao final do ano e início do próximo se instale. Alguns vão mais longe e falam não de uma crise mas de duas sequenciais.
Em boa verdade parece estarmos a assistir à falência do paradigma económico nascido com a Sr.ª Thatcher e Ronald Reagan, levado ao extremo pelos neoliberais que raptaram a política e os políticos em nome das forças do mercado. Os políticos não tinham nada a ver com a economia e os mercados regulamentavam-se a si mesmos. Está à vista.
Mais de uma vez tenho sido criticado por observar a economia de um ponto de vista político e com isso escrever odes anti-neoliberais. Talvez. A verdade, porém, é que as receitas que nos têm impingido os vários dirigentes políticos assentam no mercado e no não intervencionismo. Só Barack Obama teve a coragem de regulamentar alguns aspectos da actividade financeira da banca para evitar os investimentos super arriscados abrindo condições à falência de instituições bancárias – com custos para os depositantes e pequenos investidores e para o próprio Estado (por arrastamento o contribuinte), que se vê nalguns casos obrigado a intervir para evitar males maiores.
O Mundo ainda não conseguiu ultrapassar a crise dos “subprimes” e dos maus investimentos e já outra se desenha. Apesar das medidas de Barack Obama, os Estados Unidos estão a mergulhar ainda mais fundo na crise do imobiliário, em todo o Mundo os consumidores poupam em vez de comprar e a horda de desempregados está fora de todos os mercados, nem trabalha nem obviamente compra.
Já aqui falei, ainda recentemente, na desilusão que foi constatar que as despesas de capital das empresas americanas, que no primeiro trimestre pareciam apontar para investimentos e consequente criação de postos de trabalho, foram apenas reposições de stocks e modernização de equipamentos. Na sexta-feira passada, o Departamento de Comércio dos EUA rectificava em baixa a estimativa de crescimento económico. O que parecia ser um crescimento de +2,4 por cento afinal ficar-se-ia nuns modestos +1,6 por cento.
Alguns analistas vão mesmo mais longe e face ao crescimento excessivamente moderado da economia norte-americana não excluem que após uma primeira recessão surja uma segunda se a deflação de preços e salários se vier a verificar, um cenário que todos procuram minimizar. Ben Bernanke, o patrão do FED (banco central dos EUA) sustenta que ainda existe margem de intervenção e que o FED está pronto para o fazer se necessário. Com taxas a zero por cento não há muito que o FED possa fazer, a não ser comprar aos privados os próprios títulos da dívida soberana dos EUA para injectar de novo liquidez e apoiar benefícios fiscais para depois compensar com novo títulos da dívida. A verdade é que a crise “made in USA” é global e não tem soluções nacionais.
Mais uma vez os indicadores graves vêm do sector imobiliário. Orgulhosos de possuírem casa própria, os americanos não só sentem que o investimento que fizeram na sua habitação se está a depreciar como não compram. Em Julho, o mercado imobiliário caiu 25,5 por cento face ao nível do ano passado, o mais baixo desde 1995 e o custo da habitação caiu cerca de 30 por cento. Aos bancos faltam pedidos de financiamento – o que deveria ser o seu “core business”.
As consequências surgiram na bolsa com o Dow Jones Industrial a cair 134 pontos, um mínimo dos últimos seis meses. Os investidores fogem das bolsas, não só nos EUA como na Europa ou no Japão, e refugiam-se no ouro, e já nem os títulos das dívidas soberanas se tornam atractivos para além de dois meses. O imobiliário, em especial os “subprimes”, lançou a recessão e não vai ser ele a ajudar à recuperação.
As economias, com ou sem neoliberalismo, têm duas formas de recuperar: ou o aumento das exportações ou o relançamento dos mercados internos. Nenhum parece ser uma opção. Com uma crise que é global as exportações não aumentam – com excepção do caso alemão que veremos à frente – nem os mercados internos se dinamizam.
A compor o ramalhete, vem uma apreciação do iene que levanta preocupações em Tóquio que vê as exportações – base da sua economia – a descer. Por outro lado, uma descida do dólar, que representa uma fatia considerável das reservas japonesas coloca sérios problemas. Se isso não chegasse, a China, cujo PIB ultrapassou o japonês, procura “arrefecer” a sua economia e não é o comprador que iria dinamizar o mercado mundial.
Nos Estados Unidos o desemprego não descola dos dez por cento, um número que se repete pela União Europeia (apesar das dissimulações estatísticas dos Estados) e até na Alemanha está nos 7,5 por cento. Com os Estados a cortarem nas despesas sociais, a prioridade das famílias tornou-se amealhar para as vacas ainda mais magras que todos acreditam estar para vir. O consumo interno tornou-se uma ilusão. Não haverá retoma através do relançamento do consumo interno. O dinheiro começa a ficar debaixo dos colchões dada a desconfiança na solidez da banca. E se os países não conseguem recuperar através do consumo interno, também não o conseguem pelas exportações. Os investidores mantêm-se expectantes. A indústria abranda a produção. O desemprego não cai.
As esperanças de que a China e as economias emergentes viessem ajudar a retoma não tiveram em conta o factor desconfiança do consumidor. Se por um lado a China não quer ver a sua economia a sobreaquecer e como habitualmente prefere exportar capitais que importar bens, as economias emergentes, muitas baseadas no petróleo, também se mantêm prudentes. O consumo dos produtos correntes, “low cost, high quality” fica para mais tarde. Por outro lado, para que as economias emergentes pudessem contribuir positivamente para a retoma seria indispensável aliviá-las do fardo da dívida. Ou seja, riscar pura e simplesmente a dívida do Terceiro Mundo.
O êxito alemão verificou-se precisamente nas exportações, mas não só. Por um lado, sindicatos e patronato mantêm há anos um pacto de moderação salarial, que começa a ser posto em causa pelos sindicatos. Esse pacto surgiu, não com a crise actual, mas com a necessidade de meios para a unificação alemã. As exportações alemãs cresceram acima de oito por cento, sobretudo para os mercados asiáticos e no próprio mercado interno o consumo teve um modesto aumento de 0,6 por cento. Mas as reivindicações salariais estão bem presentes, em paralelo com as despesas do Estado com as reformas.
Os mercados não se regulamentam a si próprios, tornaram-se uma selva financeira. Os Estados têm de deixar de investir em sectores não produtivos, como garantir “à outrance” a liquidez da banca para investirem no sector produtivos, não em incentivos fiscais mas directamente em empreendimentos que criem empregos. O défice orçamental não é a ameaça da economia, a ameaça maior das economias ou da economia global, se quisermos. As ameaças são a elevada taxa de desemprego que nulifica o consumo, a crise de confiança nas instituições e nos Governos que governam em função dos interesses financeiros de quem paga as campanhas eleitorais e o modelo económico em si mesmo.
A nova crise americana atingirá a Europa fragilizada até ao final do ano e as economias emergentes vão sentir a redução das suas exportações, a redução do valor das matérias-primas que produzem e exportam. Ou seja, os países ditos desenvolvidos não vão poder contar com os emergentes e estes vão também sentir a crise.
A resposta está nas mãos dos políticos. Em novas estratégias político-económicas, no desenvolvimento de novas tecnologias, no enfrentar da crise ambiental, num conjunto de novas regras sobre os défices, na regulamentação da actividade financeira. Uma boa altura para reler Karl Marx. Não para o seguir mas para reler e analisar o seu pensamento.
O Mundo global não pode voltar atrás pois tem imensos benefícios, mas tem de ser repensado e enquadrado numa estratégia política de desenvolvimento sustentado. Até lá o melhor é habituarmo-nos aos crescimentos moderados, modestos, à nossa contribuição para o enriquecimento do Estado e o Estado a investir produtiva e racionalmente visando reduzir os excluídos rentabilizando assim os seus investimentos. O ambiente, por exemplo, é uma das áreas onde cada vez mais o investimento é necessário, um novo sector da actividade económica que só marginalmente é aproveitado sem proveitos visíveis para ninguém. Serão as catástrofes naturais inevitabilidades com que o Mundo vai ter de conviver? Ou Serão o produto de um paradigma económico falido?