16 de Agosto, 2010
Nos jornais ou nas televisões em geral escasseiam as notícias dos muitos conflitos que subsistem ou proliferaram nas duas décadas desta “nova era” de desordem internacional. A menos que o confronto tenha lugar no chamado “Primeiro Mundo”, como sucedeu com o colapso da antiga Jugoslávia, ou envolva países como os Estados Unidos ou a Aliança Atlântica, as guerras foram varridas para debaixo do tapete. Como se ninguém se importasse, nem tivesse o direito a ser informado, com os confrontos que matam diariamente em vários pontos do globo, designadamente em África.
Os conflitos de que não se fala nem serão certamente debatidos na Assembleia Geral da ONU que abrirá daqui a cerca de dois meses. Talvez o Secretário-Geral, por inerência de funções, sinta que seja excessivo contribuir para a conspiração de silêncio e aborde os problemas que subsistem, a guerra, a falta de alimentos, a água e os ambiente. A sua voz será no entanto abafada pelas preocupações americanas com o combate ao terrorismo e o coro que se erguerá em apoio desse combate, dos programas nucleares do Irão e da Coreia do Norte.
No Médio Oriente os vários conflitos não têm soluções à vista, novos conflitos desenham-se já, e o combate ao terrorismo estendeu-se ao Iémen de forma encoberta. Poucos se deram conta que desde Maio os Estados Unidos intervieram militarmente no Iémen, com apoio (aparentemente posterior) do Governo do país. As intervenções, em Maio passado, seguiram-se a outras no Norte de África, no Tajiquistão, Somália, etc., que passaram bem mais despercebidas.
O diário “New York Yimes”, na edição de passado dia 14 de Agosto publicava um extenso artigo dando conta dessas operações militares esclarecendo que os ataques no Iémen haviam começado em Dezembro de 2009, bem como haviam escalado as operações contra a Al Qaeda no Paquistão.
A guerra estava a afastar-se do Afeganistão e do Iraque através de acções militares autorizadas, segundo o “New York Times” por “uma directiva secreta”, assinada pelo General David Petraeus, enquanto comandante das forças americanas no Médio Oriente, ordenando a “expansão da actividades militares clandestinas em países hostis, bem como aliados, ou amigos, visando obter informações que permitissem montar operações que perturbem a actividade dos militantes e reconhecimentos que possibilitem considerar intervenções militares no Irão”. A notícia não teve, até agora, eco significativo fora dos EUA. Contudo, é perturbador saber que as operações secretas até agora da competência da CIA se estenderam ao Pentágono. A decisão, conforme a legislação americana, nada tem de ilegal ou ilícito.
No passado, as operações da CIA tinham de ser previamente autorizadas pelo Presidente dos EUA e o seu desenrolar passava o crivo das comissões competentes do Congresso. As operações militares, mesmo as deste tipo, não têm de ter aprovação formal do Presidente, nem estão sujeitas ao controlo do Congresso.
Pode-se duvidar, e já existem motivos para isso, da eficácia dessas operações militares. Os ataques no Iémen não produziram os resultados desejados pelos seus responsáveis senão num primeiro tempo. O sentimento antiamericano pode reforçar-se e os militantes islâmicos radicais encontram nesses ataques mais matéria de propaganda. Uma propaganda que transforma a sua luta, seja ela pelo que for, numa cruzada contra cristãos. Precisamente aquilo que é necessário evitar é que os radicais islâmicos se possam apresentar como guerreiros de uma Jihad.
As operações visando a recolha de informações são também preocupantes. Por um lado, colocam os militares na posição de espiões, o que em caso de captura lhes retira a protecção da Convenção de Genebra. Acresce a notícia preocupante, também veiculada pelo “New York Times”, segundo a qual funcionários do Pentágono teriam contratado empresas privadas para levarem a cabo missões de espionagem em território inimigo e mesmo em países amigos. O Pentágono já esclareceu que havia uma investigação em curso visando investigar mesmo eventuais crimes de desvio de fundos para esses contratos. Todavia, uma enorme sombra continua a esconder o que se passou com esses alegados contratos.
Barak Obama corre o risco de se ver aliado a elementos menos desejáveis, como sucedeu com muitos dos seus antecessores durante a Guerra Fria. Foi a Amnistia Internacional quem denunciou o uso de mísseis de cruzeiro equipados com bombas de fragmentação contra as bases dos militantes fundamentalistas no Iémen. O que acabou por ser reconhecido e explicado com o empenho de outros meios telecomandados na zona cinzenta do Paquistão/Afeganistão.
Esta guerra veio a público, mas até agora não teve o eco que seria de esperar. A Imprensa norte-americana, para já, não está a reagir às revelações, quer dos contratos de espionagem com empresas privadas, quer as operações secretas do general Petraeus.