terça-feira, 24 de agosto de 2010

A desinformação contra Obama


Benjamim Formigo |
24 de Agosto, 2010


A desinformação é uma arma política terrivelmente poderosa. Para os que observam a política norte-americana já há mais de duas décadas não é novidade o uso da desinformação contra os candidatos à Presidência nem contra os próprios Presidentes. Agora é Barack Obama quem está na linha de fogo e com dificuldades.
A primeira vez que tomei contacto com as manobras, sobretudo republicanas, de desinformação foi durante a campanha Bush (pai) vs Dukakis (antigo governador do Massachusetts. Foi a campanha do vale tudo (até tirar olhos). Nunca, porém, me passou pela cabeça que sondagens sérias, efectivamente sérias, mostrassem que 27 por cento dos americanos pensavam que Obama não era americano (Agosto de 2010, sondagem CNN/Opinion Research) ou que 24 por cento doa americanos acreditassem que ele é muçulmano (Time Magazine/ABT SRBI).
Mais preocupante é que essas sondagens são determinantes na política norte-americana e consequentemente tenham efeitos que ultrapassam inevitavelmente aquela parcela do Continente da América do Norte.
Com eleições intercalares a pouco mais de dois meses, o Presidente dos Estados Unidos, que teve de enfrentar a maior crise financeira do país desde a “Grande Depressão”, eleito por uma maioria confortável levando na sua vitória os democratas a maiorias confortáveis na Câmara dos Representantes e no Senado, sem falar nos governos estaduais, vê agora obrigado a percorrer o país em visitas relâmpago a muitos Estados para suster o debacle democrata anunciado.
O seu apoio à construção de uma mesquita e de um centro islâmico em Nova Iorque, não muito longe do local onde estavam as torres gémeas, lançou na campanha eleitoral o elemento religioso. A internet foi o veículo escolhido para esta verdadeira conspiração. E se o veículo de disseminação foi fácil de escolher e impossível de travar, o meio de combater essa corrente de intrigas não é fácil e não irá encontrar na “Net” o terreno fértil que a mentira original.
Tudo isto ocorre quando Barack Obama conseguiu que israelitas e palestinianos voltem à mesa de conversações. Uma das questões mais graves do Médio Oriente e que se arrasta desde o nascimento do Estado de Israel não iria ser resolvida no ou nos encontros que se aproximam. Todos estamos conscientes disso. O facto de voltarem a conversar, só por si é de uma importância que não pode ser desprezada e exige a atenção do Presidente dos Estados Unidos que conseguiu que senão as conversações pelo menos o dialogo fosse retomado.
Ao contrário dos propalados receios, fomentados pela campanha presidencial republicana, Barack Obama depois de eleito não abriu o caminho a uma debandada do Iraque. Enquanto senador manifestou-se contra essa aventura de George Bush (filho). Como Presidente começou a preparar as condições e iniciou uma retirada, ainda que parcial das tropas americanas do Iraque. Não cedeu terreno no Afeganistão e quando exonerou o comandante militar americano que o criticou não o substituiu por um menino de coro, o general Petraeus está muito longe dessa definição. Foi Petraeus quem assinou a ordem para implementar operações secretas dos grupos especiais, como a Força Delta.
Ainda na frente internacional, Obama virou-se para o multilateralismo sem contudo abrandar a posição de Washington, lançou um novo dialogo com a Rússia e adoptou uma linha dura relativamente ao Irão.
Em síntese, do ponto de vista externo, Barack Obama não divergiu muito de qualquer presidente republicano inteligente. Simplesmente num país que – como um dia, em pleno período de apoio aos “contras”, o caricaturou o “Los Angeles Times”, vê a Nicarágua imediatamente a Sul do Rio Grande, a política externa de nada conta.
Do ponto de vista interno Obama é criticado porque o desemprego continua elevado, cerca de dez por cento, e aquilo que parecia ser uma retoma não foi. Os números dos primeiros trimestres mostravam despesas de capital das empresas consideravelmente elevadas. Tudo parecia indicar que havia uma retoma e seriam criados novos postos de trabalho. Na verdade constata-se agora que as empresas investiram na substituição de equipamentos obsoletos cuja vida útil haviam prolongado durante todo o ano de 2009. Apenas um em cada três créditos solicitados à banca é para investimento. Mais grave, muito desse investimento é em software e equipamento propiciador de maior rentabilidade e por vezes de menor força de trabalho.
Com os americanos a tomarem decisões de consumo em termos pontuais, que apenas compram o que necessitam e quando necessitam, as empresas vêem-se na impossibilidade de programar a médio e longo prazo, limitando-se a produzir para o consumo. Durante décadas os americanos – como os europeus, embora em menor grau – viveram de crédito oferecido e fomentado pela banca. Com o desastre financeiro provocado pelos maus investimentos dos bancos e todas as consequências as famílias deixaram de consumir e de projectar o seu consumo a médio prazo como faziam.
Por incrível que pareça nenhum mérito é reconhecido ao Presidente. Certo é que a maioria das suas medidas só terão efeito a prazo. Contudo, introduziu regras no jogo financeiro, promoveu a educação, fez aprovar pelo Congresso um conjunto de reformas de carácter social, incluindo benefícios de assistência de saúde. E é criticado pelo desastre ecológico provocado pelo acidente num furo da BP!
A 2 de Novembro, a totalidade dos lugares na Câmara dos Representantes, um terço dos lugares do Senado e 37 governadores estaduais vão a votos e as sondagens não são nada favoráveis aos democratas. Obama tem uma taxa de aprovação que não chega aos 50 por cento. Os candidatos democratas evitam o contágio do Presidente e é ao vice-Presidente Joe Biden que coube o papel de procurar segurar a classe trabalhadora. Até Bill Clinton foi chamado à campanha como se se tratasse de uma disputa presidencial. Barack Obama ataca afirmando que os republicanos adoptaram “No, we can’t” para slogan da sua campanha (por oposição ao “Yes, we can” da sua campanha presidencial.
Barack Obama tem de mobilizar de novo os jovens eleitores e as minorias que não costumam votar, como o conseguiu na sua campanha, para ajudar a suster a queda democrata e a conspiração que, com sucesso, está a denegrir a sua imagem e a do partido.
O Presidente dos Estados Unidos não é americano e provavelmente é muçulmano! Os americanos têm definitivamente de começar a acreditar que não são só os políticos que carecem de credibilidade. Os eleitores também. Ou como diria Obélix: “Ils sont fous ces américains!”