segunda-feira, 28 de junho de 2010

Presidente Barack Obama em força no G-20


Benjamim Formigo |
28 de Junho, 2010


Os Estados Unidos, que há um ano atrás surgiam no palco internacional como os responsáveis (e foram) da crise financeira e económica, apresentaram-se nas reuniões do G-8 e do G-20, realizadas este fim-de-semana em Toronto, como o único país que passou de uma recessão a um crescimento de 3 por cento. Barack Obama desembarcou em força.
Durante a noite de sexta-feira o Congresso trabalhou para lhe dar os instrumentos legais que permitem à Administração norte-americana impor as regras em Wall Street, ou pelo menos impedir as práticas que levaram à crise de há um ano. Os europeus estão ainda “no mato e sem cachorro” (para usar uma expressão brasileira) incapazes de conciliarem os seus cortes orçamentais com o relançamento da economia, longes de uma reforma no sistema financeiro que se assemelhe de longe ao que Obama conseguiu: a maior reforma desde os anos 30 do século passado.
Para Obama o défice, até 2013, é um mal necessário. A partir de 2013 a Casa Branca estima que com o relançamento da economia poderá ter o seu défice naturalmente reduzido e poderá atacar as despesas públicas. Ao contrário, os europeus (da zona euro) e em particular a chanceler alemã Ângela Merkel, dão toda a prioridade à redução do défice, agarrados de forma insana ao Tratado de Maastricht e ao Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC) que assistiu o nascimento do euro.
Na América de Obama tudo é transformável, no Velho Continente o PEC e Maastricht tornaram-se dogmas, tabus até agora intocáveis. A Europa (a Zona Euro – ZE) deixa a impressão de que as premissas económicas e financeiras de há uma década permanecem inalteráveis. Na realidade o que sucede é que cada um terá a sua reforma e na inexistência – já escrevemos – de um governo económico europeu a revisão fica para as calendas.
Enquanto os americanos reagiram rápida e decisivamente, os europeus continuam discussões bizantinas e optam por subidas de impostos, que prometeram não fazer, e cortar na despesa, designadamente na social, que tem implicações gravíssimas, designadamente nos sistemas de saúde e taxas de mortalidade, conforme um estudo do “British Medical Journal” publicado a semana passada e citado pelo diário francês Le Monde.
A forma como as agências de notação se apoderaram das economias levou a Grécia a uma situação de ruptura, e a Espanha e Portugal a caírem nas classificações, estando a Irlanda e a Itália nos primeiros lugares para terem idêntica sorte. E se a ZE está em crise, se os impostos e taxas sobem, as empresas fecham portas, os outros países do mercado interno sofrem por arrasto as consequências, como o sofrem o Sul de um modo geral. O consumo da ZE, e em particular da Alemanha, diminuiu. A subida do desemprego, aliada à resquícia de estado social na Europa, provocam, por um lado, uma diminuição das receitas fiscais e, por outro, um aumento dos encargos sociais e, portanto, da despesa do Estado. Os europeus já não têm por onde cortar.
Enquanto os EUA não hesitaram em taxar a banca e o sistema financeiro de forma rápida e decisiva, os europeus só agora falam nisso e o fazem timidamente. Os bancos europeus não estão inocentes na crise, embora se atire com as culpas para os americanos. Todavia enquanto no Novo Mundo se tomam medidas, o Velho Continente titubeia como que afectado pela doença de Alzheimer.
Barack Obama porém não se ficou pelas medidas internas e conseguiu da China uma cedência importante: Pequim deixou a moeda subir, com eventual prejuízo para as suas exportações, mas beneficio do seu sistema bancário. Com o Mundo em crise as exportações chineses serão afectadas e a China terá de abrir o seu mercado ao exterior, o que tem feito demasiado lentamente. A prolongar-se esta situação e com o petróleo de novo em alta, a China corre mesmo o risco de ver os seus “investimentos” financeiros em incumprimento por parte dos seus devedores.
No G-8 os EUA deixaram claro que tinham feito a sua parte. Ao G-20 cabe agora ir ao encontro dos americanos, com a Europa à frente. China e países emergentes, designadamente os asiáticos, terão de ter um papel importante na retoma mundial sob o risco de a crise se prolongar excessivamente, afectando as economias emergentes ainda mais.