segunda-feira, 19 de abril de 2010

Jornalismo em notas soltas

Benjamim Formigo |
19 de Abril, 2010


O leitor espera do cronista ou do colunista um texto profundo, articulado e quase ex catedra. Nem sempre isso pode ocorrer. Falar ex catedra é a negação do jornalismo, é a prosa arrogante dos ignorantes. Escrever também não é apenas pegar na pena e fazê-la correr sobre o papel. É um acto responsável individual que compromete a seriedade dos princípios perante o leitor.
A poucos dias do aniversário da Revolução do Cravos em Portugal são muito os que se interrogam do que ficou.
Em boa verdade ficou o fim da Guerra Colonial, a Independência das Colónias. O fechar de um passado colonial e colonialista que pouco tem de dignificante. Dignificante foi a coragem de pegar em armas para lhe por termo já que a solução política não surgia. Ficou uma liberdade de Imprensa que começa a assumir foros de libertinagem, como em vários países.
Em Portugal assiste-se ao assassínio de carácter do chefe do Governo, José Sócrates. O autor esclarece que não se revê neste Governo. Por isso mesmo sente-se livre para sublinhar os caminhos ínvios de um jornalismo duvidoso.
Os jornalistas recebem informações, algumas delas sob a forma de documentos, que lhe são passadas por agentes da Justiça (seja polícia, ou até Ministério Público). Por vezes extractos de escutas telefónicas que o Juiz de Instrução entendeu não terem relevância para o apuramento da verdade. A obrigação ética do jornalista é confirmar essas informações, fazer o contraditório para apurar ou tentar apurar a verdade.
Uma peça instrutória não é uma prova, tem o mesmo valor que um “mujimbo” e por isso mesmo a Defesa solicita o contraditório se o Procurador se limitar a aceitar a peça para construir a acusação. Fraco é o jornalismo, em qualidade e ética, que aceita este tipo de informação, como tem sucedido na Imprensa portuguesa face ao Primeiro-Ministro José Sócrates. É lícita a oposição ao partido do Governo e ao chefe do Governo, mas tem de ser responsável e sustentada pela verdade.
O que sucede em Portugal não é único no Mundo. Desde que os donos dos jornais descobriram que os jornalistas sem contrato vinculativo são presa fácil do Poder, seja do Estado, do económico ou de outras fontes menos claras. A desonestidade passou a imperar nos Media, salvo honrosas excepções de que não é possível deixar de destacar o “Washington Post”, o “New York Times” o “Le Monde”, o “Le Monde Diplomatique” ou a “BBC World”. São os casos mais conhecidos. Felizmente ainda há muitos mais.
Angola não é excepção. A acreditar no que se lê nos jornais ditos tablóides (uma qualificação que deriva do formato dos jornais britânicos menos sérios) Isabel dos Santos, por exemplo, seria uma das maiores investidoras em Angola, quase a única investidora em Angola e até em Portugal. Bom, não é condenável que uma empresária contribua para o desenvolvimento do seu país. Ainda bem que o faz. Mas a verdade é bem diferente. Feitas bem as contas ela teria de investir muito mais que o Bill Gates ganha com a sua multibilionária Microsoft. A verdade é que se pretende de facto atingir o seu pai, o Presidente José Eduardo dos Santos.
Nada disto é jornalismo responsável. É apenas lamentável. Se existem investimentos ilegítimos então o jornalista deve investigar e apurar realmente a verdade e não o que diz ser verdade. Arriscar-se em nome da sua ética e da sua deontologia do seu compromisso com o leitor. Dignificar a profissão.
Devemos isso aos leitores, aos que conquistaram a Liberdade e a nós próprios.
Assim são as Notas Soltas.