terça-feira, 27 de abril de 2010

A União Europeia ignorou os parceiros naturais

Benjamim Formigo |
27 de Abril, 2010


Continente de tradições humanitárias, a Europa sempre abriu as portas aos refugiados, políticos ou não, e a sua cultura é o produto de uma miscelanização milenária. O negócio dos clandestinos, o voltar das costas aos parceiros naturais pode pôr em causa essa tradição.
O negócio tem rendido muitos milhares de milhões de dólares, ninguém sabe quanto, e nas últimas décadas milhares de pessoas morreram na tentativa de atingir a Europa. Associadas à actividade mais visível dos traficantes de seres humanos estão outras que se estendem do tráfico de armas ao negócio da droga. São redes de recrutamento que encaminham as pessoas para as de distribuição. Milhares de milhões mudam de mãos e muitas vezes refugiados são atirados ao mar para atrasar os perseguidores. Nunca se sabe o que sucede aos que continuam.
Não é segredo o défice de mão-de-obra europeu para os trabalhos ditos menos nobres. Esses ficam reservados aos imigrantes, alguns das áreas mais pobres da União, a maior parte dos países recém ingressados na Uniao e zonas limítrofes. A costa atlântica, ao longo da África Central, e o Mediterrâneo tornaram-se lagos atravessados por embarcações que despejam humanos nas costas, muitas vezes em conjunto com outro tipo de contrabando. As estruturas europeias reagem, procurando limitar essas migrações ou, na melhor das hipóteses, controlá-las. Sem êxito na maioria dos casos. Para os políticos menos inspirados os receios que os trabalhadores clandestinos despertam são um maná, capitalizam nesses receios e os extremistas de direita ascendem ao Poder. O aumento do desemprego é atribuído demagogicamente aos clandestinos - que ocupam os lugares que os europeus (da União) evitam -, a violência é uma consequência dos imigrantes e dos seus hábitos, a instabilidade e insegurança são-lhes imputadas.
Os medos são explorados miseravelmente por aqueles que, sem ideias políticas apelativas usam os clandestinos em proveito próprio com tanto ou mais despudor do que os empresários que os contratam a troco de salários miseráveis.
Qualquer legislação que transforme um clandestino num trabalhador legal só pode ser um instrumento de combate à xenofobia e à exploração. Mas não consegue combater o tráfico humano que rende milhares de milhões. Pior é que não se consegue que a UE adopte uma política de inclusão real. Agora, com alegações da crise, antes com os mais diferentes pretextos. Há muito anos, na década longínqua de 80, no século passado, a Comunidade Europeia falava na dinamização económica, no investimento nas zonas limítrofes da União, seja na Europa ou no Norte de África, de forma a criar pólos de desenvolvimento que não só evitem o desenraizamento dos que na União procuram trabalho e encontram escravatura como propiciando condições de estabilidade social que acabam por beneficiar a própria Europa dos ricos.
Numa primeira análise, os europeus (da União) estão a manter os pobres à porta de casa, o que não deixa de ser uma verdade, mas não é menos verdade que estão a criar condições de desenvolvimento que, a prazo - médio ou longo - podem permitir uma integração harmoniosa num espaço comum.  A “Europa dos Quinze” tem primeiro de absorver os seus vizinhos do Leste sem arrumar a casa. A convergência socioeconómica não existe se as assimetrias forem esbatidas.
Hoje a Europa encontra-se em profunda crise, sem capacidade de investir nos países cujo desenvolvimento é essencial para a estabilidade social e regional. A Europa, ou mais especificamente as empresas europeias, optou pela mão-de-obra barata do Oriente, eventualmente melhor treinada e educada do que os vizinhos do Sul, ou seja do Norte de África, da África em geral, o parceiro mais natural da Europa, do ponto de visto social, cultural e geográfico.
Não foi a política que ditou as regras mas a ambição de crescimento rápido do valor das empresas em bolsa. Agora é tarde, a Europa está falida sem que tivesse contribuído para a estabilidade dos parceiros naturais. Deixando o caminho aberto a interesses menos evidentes que os europeus e ainda por cima concorrentes ou contrários aos europeus.