sábado, 27 de março de 2010

O grande carrossel afegão

Benjamim Formigo |
27 de Março, 2010


O Afeganistão, ou melhor, a política dos Estados Unidos relativamente ao Afeganistão, e mais especificamente à necessidade de retirar daquele país o seu contingente militar com um mínimo de dignidade, estão a causar uma preocupante miopia política.
A ofensiva militar de há algumas semanas teve, nem se esperava outra coisa, sucesso na entrega de mais uma parcela de território ao controlo do frágil Governo afegão. O Paquistão, acusado publicamente e, diga-se de passagem, com fundamento, de fazer vista grossa ao apoio dos talibãs no seu território, em Fevereiro abateu um dos chefes militares fundamentalistas. Patrulhou melhor a fronteira porosa e ganhou o reconhecimento de Washington.
A estratégia paquistanesa, porém, pouco tem a ver com o Afeganistão mas com o receio do seu vizinho indiano. Ganha a simpatia de Washington, Islamabad apressou-se a apresentar a factura. Hillary Clinton, nas honras da casa, prepara a reunião, não com o embaixador, mas com o general chefe do Estado-Maior do Paquistão, que se faz acompanhar do chefe dos seus serviços secretos, conhecidos pelo apoio aos talibãs. Objectivo paquistanês: auxílio económico, vender a sua tese de diabolizar a Índia e conseguir equipamento militar telecomandado – que tanto pode ter missões de reconhecimento como ofensivas.
Nova Deli vê com enorme preocupação esta aproximação de um país hostil com quem já se confrontou militarmente e que agora tem armas nucleares.
Índia e Paquistão, desde a independência da Grã Bretanha, vivem sob permanente tensão. Gandhi e os muçulmanos mais moderados sustentavam que a Índia (que na altura do domínio britânico ocupava todo o subcontinente) deveria ser um exemplo da coexistência entre hindus e muçulmanos.
Do ponto de vista britânico, isso seria dar independência a um país excessivamente grande e potencialmente demasiado poderoso. A divisão fez-se por forma a deixar semeada a discórdia, com o Punjab caracteristicamente sikh e condições autonómicas ligado à Índia bem como Jammu e Caxemira, essencialmente muçulmana dividida. Esses Territórios do Norte, confinantes com o Afeganistão e a Índia e Paquistão ficaram com fronteiras indefinidas reivindicando a Índia total soberania sobre o Punjab e Caxemira, incluindo a zao fronteiriça com o Afeganistão. As escaramuças fronteiriças têm, desde a independência, sido uma constante, apesar das intervenções da ONU, e até das diligências de paz, frustradas, levadas a cabo tanto pela Primeira-Ministra Indira Gandhi, como, posteriormente, pela Primeira-Ministra Benazir Butho, ambas assassinadas.
Se o caso Butho continua envolto em mistério, a senhora Gandhi foi assassinada por um dos seus guarda-costas, um sikh oriundo do Punjab. Muitos viram por trás deste acto a mão da espionagem paquistanesa que tem fomentado a instabilidade naquela província indiana.
A Índia tornou-se um dos países mais desenvolvidos, o segundo mais populoso, e é considerado a “maior democracia do Mundo”. Durante a Guerra Fria, o apoio americano ao general Zia Ul Aq, Presidente paquistanês – também assassinado num suposto desastre de aviação no final da década de 80 – levou Nova Deli a procurar armamento soviético, dispondo a dada altura da Marinha mais poderosa da região, e ainda hoje uma das mais poderosas do Mundo.
Mas, na altura, a Índia era apenas uma potência nuclear incipiente, ao contrário de hoje. O Paquistão, por seu turno, não tinha ainda recebido apoio nuclear da China, cuja fronteira com a Índia é também problemática, nem da Coreia do Norte. Hoje ambos são potências nucleares, com todos os riscos que essa proliferação acarreta.
Ao perder de vista a problemática instável do subcontinente indiano, os Estados Unidos não se irão limitar a uma palmadinha nas costas dos paquistaneses e a acordos de cooperação excluindo toda a componente militar. Ao fazê-lo, esquecem as preocupações indianas. Com relações tensas com a China por razões territoriais – tal como com o Paquistão – a Índia vai agora retomar e reforçar a sua política de cooperação com a Rússia, abrindo-lhe as portas do Índico. Mais: Nova Deli tem-se aproximado de Teerão à medida que os “ataques” diplomáticos ao Irão se intensificam. O Irão ganha um novo e poderoso aliado, até porque uma intensa cooperação com o Irão não está fora de causa.
Em súmula, sem resolver a questão talibã, nem ter garantias firmes de que sectores militares e dos serviços secretos paquistaneses abandonam o apoio aos fundamentalistas, os EUA parecem estar à beira de criar, a médio ou longo prazo, um problema maior do que aquele que, duvidosamente, podem estar a tentar resolver.