terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Ofensiva no Afeganistão dita estratégia de Obama

Benjamim Formigo |
16 de Fevereiro, 2010


A invasão em 2001 e consequente permanência de tropas estrangeiras no Afeganistão, seja a que pretexto for, não se pode manter eternamente. O esforço financeiro é enorme e os custos humanos estão muito além do razoável.
A ofensiva desencadeada, no sábado, contra Marja, um dos bastiões talibãs e estratégico no seu abastecimento, financiamento (com enormes culturas de ópio) e até movimentação, será um teste que as forças dos países da OTAN, que apoiam os EUA no Afeganistão e as próprias forças governamentais de Cabul, não podem falhar.
A superioridade numérica dos americanos e seus aliados face aos talibãs é, estima-se, superior a 1 para 10. Mais de 15 mil homens de Infantaria apoiados por Artilharia e Aviação meteram-se no início do fim-de-semana a caminho de uma cidade onde, em Maio, testaram a capacidade militar talibã.
Do lado americano, houve a preocupação de anunciar esta ofensiva, procurando, com isso, que os civis saíssem da cidade ou se mantivessem em suas casas, para evitar as baixas civis que têm deixado bastante mal Washington nas fotografias. Do lado talibã, houve o cuidado de anunciar que a estrada estaria minada e obstruída pelos engenhos explosivos artesanais que se têm revelado altamente mortíferos para as forças estrangeiras que apoiam os EUA e o actual Presidente Hamid Karzai.
A abrangência politica desta operação é largamente superior às acções militares que a antecederam e se saldaram em fracassos. Neste momento, é bizantino discutir se a invasão do Afeganistão foi um erro político e estratégico no combate ao terrorismo. Não vale a pena recordar que aquele país de pedras e vales foi cemitério de impérios. A invasão é um facto, a ocupação é outro facto, a necessidade de retirar as tropas estrangeiras é outro facto como é outro facto incontornável que a saída das forças de ocupação tem de ser substituída por um poder estável.
A zona onde esta acção decorre é fronteiriça com a província paquistanesa dos Territórios do Norte, uma zona de onde partiram guerrilheiros contra o império britânico, as tropas soviéticas e, na última década, contra os americanos. Em Pesahwar, capital da província paquistanesa, desde sempre que o movimento de armas é controlado pelas tribos, mas ultimamente as próprias tribos acabaram cedendo terreno aos talibãs. A questão ultrapassou o tribalismo que historicamente tem impedido soluções políticas duradouras e abriu caminho aos fundamentalistas que acabaram por assumir o poder à sombra das rivalidades tribais. Quando as tribos deram por isso era tarde. O poder talibã foi destituído pela invasão de 2001, mas a sua influência apenas recuou para voltar à primeira linha nas madrastas paquistanesas.
No Paquistão, as questões religiosas, em especial o fundamentalismo, e as vantagens de um Afeganistão instável são razões para fugir às ordens do Governo instituído e manter o apoio aos talibãs por parte de sectores ligados aos serviços secretos. Não é o local para dissertar sobre a questão. Contudo, nunca é demais sublinhar que aquela zona – Afeganistão, Irão, Paquistão e Índia – tem um potencial de destruição pouco comum.
Barak Obama tem a retirada do Afeganistão na agenda. Obama não pode ter o seu Vietname no Afeganistão, nem pode retirar repetindo as imagens da saída de Hanoi.
Se a ofensiva iniciada no sábado se tornar um fracasso ou se revelar a travessia de um pântano, o Poder dito ocidental, em geral, e americano, em particular, passa a ser uma anedota. Um fracasso nesta ofensiva fará também pensar que há muito que Moscovo devia ser visto como um aliado e Nova Deli importante conselheiro na região.
Este exame não tem segunda chamada. O chumbo é um regresso à procura de uma nova estratégia, de novos aliados e conselheiros e a perda de mais vidas humanas, militares, civis e talibãs.