22 de Fevereiro, 2010
De ambos os lados do Atlântico, ainda não há seis meses, os governos não podiam ter sido mais kenesianos quando injectaram em socorro da banca milhares de milhões de dólares, euros e yenes para suster a derrocada do dominó especulativo que os próprios haviam construído.
Uma especulação, a crise dos “subprimes”, que chegou a ter contornos de ilegalidade, levou à falência alguns bancos em quase todos os continentes. Os depositantes perderam a confiança na banca, uma instituição só marginalmente mais simpática que o fisco, e com razão. Os seus depósitos, as suas poupanças foram usadas de forma irresponsável em fundos de alto risco – reconheça-se de maior rentabilidade - sem que os travões tivessem sido accionados no momento necessário.
A bolha do imobiliário sucedeu-se à dos “.com” e agora para os mais pessimistas podemos estar a caminhar para a bolha da dívida pública. Para resolvermos já esta questão as dívidas públicas são colocadas no mercado de capitais como bens seguros e não é o aumento dos défices dos Estados que os torna insolventes, e, portanto, incapazes de pagarem aos seus credores. De facto, os Estados são os únicos devedores que pagam. Claro que isso não impede a especulação com os títulos de dívida pública, mas apesar da supremacia do poder financeiro sobre a política, os políticos se e quando o entenderem dispõem de instrumentos que defendem os seus próprios títulos contra os especuladores: o poder legislativo, o executivo. Fiquemos pelos mais simples e menos ficcionais.
A bolha da dívida pública, sendo sempre uma possibilidade, não é credível e as agências de “rating”, depois da forma estrondosa como falharam a previsão da crise do sector bancário, já não têm a credibilidade necessária a condicionar um Estado. Outros mecanismos vão começar a surgir porque o poder público tem necessidade e o direito de se proteger – e aos bens dos cidadãos – contra manobras especulativas e grupos financeiros maiores que alguns Estados.
Para salvar a banca, que levou o Mundo para o precipício da crise financeira e depois económica, os Estados recorreram a financiamentos com dinheiros próprios e empréstimos contraídos no mercado financeiro para injectar nos bancos e garantir os depósitos dos cidadãos, os fundos que haviam comprado e evidentemente os próprios bancos, com raras excepções. Um ano depois descobre-se que essa mesma banca que foi socorrida com dinheiros públicos, ou melhor, alguns dos seus gigantes, ajudaram a Grécia a falsificar as suas contas face à União Europeia.
Mais, descobre-se que não foi só a Grécia a recorrer a sofisticados estratagemas que mostravam contas equilibradas graças a operações financeiras não contabilizáveis remetendo para o futuro o pagamento dos adiantamentos e fazendo os pagamentos através de concessões de taxas aeroportuárias, portagens, etc. Alemanha, França, Itália, Espanha e Portugal – pelo menos – haviam recorrido a vários tipos de engenharia financeira, para equilibrar o défice, embora em muito menor grau e na maior parte dos casos contra a emissão de obrigações da dívida pública.
Aqui entram as agências de “rating” que, ao qualificar os países como se de empresas se tratasse, obrigam por vezes a seguros de risco que tornam o financiamento da dívida mais caro. Escandalosamente os financiadores desses seguros são as mesmas instituições que se envolveram nas engenharias financeiras menos transparentes.
Para regressar ao resgate dos bancos, os Estados, ao recorrerem ao crédito privado na gigantesca operação do ano passado, tornaram mais difícil o acesso ao crédito para os investidores, muito em particular os que se movimentam na área produtiva. Estes sentem os efeitos da reacção dos bancos, que se tornaram subitamente muito cautelosos, têm dificuldade em escoar a sua produção porque o desemprego se mantém extremamente elevado e não criam empregos porque não têm necessidade de aumentar a produção.
A crise mantém-se nos EUA como na UE (dentro e fora da zona euro). Os europeus têm de ultrapassar o complexo de Maastricht, de rever o Programa de Estabilidade e Crescimento, de aperfeiçoar os mecanismos do euro, do Banco Central Europeu e a UE tem de adoptar uma governação mais económica regulando a actividade. Em boa verdade, só os fundamentalistas é que ainda pretendem que o mercado omnipotente seja o regulador.
Desta crise, para os europeus parecem sair sinais contraditórios. Por um lado, mostra que o défice de três por cento é uma ilusão, que está desajustado da realidade hodierna. Por outro, mostra que o euro é de facto uma medida de protecção das economias cujo crescimento a regulamentação da sua existência cerceia. Finalmente, esta crise helénica trouxe aquilo que o BCE não conseguia: fazer cair o valor do euro face ao dólar. Depois de paridades exageradas o euro caiu finalmente, na mesma ocasião em que a Reserva Federal sobe finalmente a sua taxa de redesconto em um quarto de ponto percentual. Só um pequeno empurrão para o euro chegar a um valor sustentável e competitivo: 1.25 dólares.
Quanto às dívidas públicas, depois de um período deflacionário é chegada a altura de um pouco de inflação que desvalorize o dinheiro e torne a dívida mais fácil de pagar. As políticas restritivas têm de ser repensadas pois contribuem apenas para abrandar as economias e diminuir as receitas fiscais num ambiente de consumo deprimido, elevado desemprego, poupança e aumento do petróleo. Também aqui a crise grega, ao deprimir o euro empurrando-o para a marca de 1.25 dólares por euro, o situa numa zona equilibrada para a competitividade na exportação e um peso suportável na importação de petróleo. E porque tudo está ligado, é bom que a política se comece a sobrepor. Os emergentes estão no mercado e se o crescimento nos EUA e na Europa não se fizer sentir, as economias emergentes podem ser atingidas pela inflação e um sobreaquecimento que levará os seus Estados à contracção e a uma menor intervenção no consumo mundial, com um impacto significativo na retoma da economia do Norte.