18 de Outubro, 2009
Pelo calendário do Comité Nobel da Paz o nome de Obama deverá ter surgido escassas semanas após a sua posse como Presidente dos Estados Unidos. Uma decisão tomada com base nas suas promessas de campanha. Ou seja muito antes dos seus célebres discursos de Ankara e do Cairo ou da decisão de suspender o escudo antimíssil a colocar na Polónia e que estava a envenenar não só as relações com Moscovo mas também dentro da União Europeia, grosso modo dividida entre os 15 e os novos membros do Leste. Muito antes das declarações sobre cooperação internacional, multilateralismo, nova política ambiental, etc.
Ao distinguir nesta fase tão prematura do mandato o Presidente Barack Obama o Comité Nobel está a dar-lhe, queira ou não, um recado e uma missão: cumprir as suas promessas. Espera-se pois que nos próximos meses e anos Obama consiga a mudança, o desarmamento nuclear, um acordo sobre o clima, um acordo de paz sustentável no Afeganistão, uma solução duradoura no Iraque, negociar um acordo de paz justo e duradouro no Médio Oriente e promova nas relações internacionais o multilateralismo.
Claro que ao lermos a lista resumida das intenções de Obama teremos de adoptar uma atitude céptica. Só por si as questões centrais de crise são de uma complexidade incomensurável. Voltar ao ponto a que Bill Clinton chegou no Médio Oriente – e que regrediu até zero com George Bush e Netanyaou – exigiu ao antigo Presidente dois mandatos. O problema afegão liga-se ao Paquistão e a solução passa por Islamabad, o Iraque é um ninho de vespas, e por aí fora.
Nem tudo porém são impossibilidades. No Cairo Obama estendeu a mão à comunidade muçulmana e islâmica pondo fim ou procurando pôr fim a uma espécie de islamofobia (para usar um neologismo do diário francês Le Monde). Contrariou a tendência de se considerar as divergências como um conflito entre civilizações. O envolvimento da ONU adivinha-se maior e mais substantivo, mas nada ainda prova que o seja. A inspecção da AIEA (Agência Internacional de Energia Atómica) ao Irão é todavia um indício de maior protagonismo da ONU. Será que os políticos americanos que pontificam no Congresso terão paciência para a morosa diplomacia? Recorde-se que Hans Blix e a sua comissão de investigação sobre as alegadas armas de destruição massiva no Iraque foram varridos do caminho quando Bush decidiu que Saddam Hussein tinha armas químicas e mandou invadir o Iraque.
Quando a poeira assentou viu-se que Bush mentiu e que a Blix não foi dada oportunidade de terminar o seu trabalho – que apontava para a não existência dessas armas – e dar lugar à diplomacia.
Barack Obama tem pela frente dois – e só dois – mandatos, uns escassos oito anos. A pressão do Comité Nobel e dos políticos vai ser enorme. Mas o homem que mundialmente despertou as imaginações vê-se agora alcandorado a lugares com que nunca sonhou. O Nobel foi excessivo e vai-lhe ser cobrado pela opinião pública que dele fez um ídolo, uma espécie de salvador.
Nada afinal mais errado, Barack Obama é apenas o Presidente dos Estados Unidos onde tem de gerir as armadilhas de “amigos” e adversários, começando já com o sistema de saúde que beneficia os mais desfavorecidos. No dia em que o Nobel foi anunciado reunia o Conselho Nacional de Segurança, pela quinta vez em duas semanas. Na agenda estava o Afeganistão e não era descartável o reforço militar americano nesse país, como não o é no Iraque. Uma ironia que faz parte integrante de um presente envenenado.
A terminar vale a pena explicar que qualquer anterior laureado com o Nobel da Paz ou outro pode propor ao Comité Nobel um candidato, dentro de um certo prazo. Não foi o caso com Obama pois o prazo expirou antes da sua posse. Resta ter siso proposto por membros do próprio comité, e mesmo assim como atrás se disse com base nas suas promessas e não nos seus actos ou declarações já como Presidente. Tradicionalmente o Nobel recompensa um acto passado, por vezes até muito tarde, como foi o caso de Albert Einstein, constituindo assim esta decisão uma ruptura com a tradição.
Os dois novos membros do Comité norueguês podem estar na origem dessa decisão, em particular o novo presidente do Comité Nobel da Paz Thorbjorn Jagland. Secretário-geral do Conselho da Europa, ex-Primeiro Ministro trabalhista, politicamente próximo de Obama, antigo vice-presidente da Internacional Socialista, Jagland tem uma personalidade interventiva. Poderá ter querido deixar uma marca do Nobel no futuro das relações internacionais. Se assim foi – e só dentro de 50 anos os arquivos serão tornados públicos – há que reconhecer que não poderia ter escolhido melhor intérprete que Barack Obama para o seu guião.