28 de Agosto, 2009
A estratégia definida para lidar com todos esses elementos é essencial para ultrapassar os períodos de crise, seja política, económica ou financeira.
José Eduardo dos Santos herdou muito cedo na sua vida uma situação política e militar que do ponto de vista internacional em nada facilitava a procura de soluções porque as saídas diplomáticas do conflito que se gerou em Angola não faziam parte da estratégia definida pelos senhores da Guerra Fria. Angola fazia parte de uma estratégia mais vasta de conflito indirecto entre os Estados Unidos e a União Soviética.
O Presidente angolano teve, contudo, desde o início do seu mandato, a percepção de que a saída do conflito não era evidentemente militar mas não passava apenas pela Guerra Fria, um conjunto de factores regionais poderia influenciar o caminho da guerra e até a sua intensidade. Em simultâneo, a Guerra Fria espartilhava as independências na África Austral, onde os EUA, receando ver crescer a influência soviética, não hesitaram sequer em apoiar o regime do apartheid. Do mesmo modo, na África Central, a influência francesa vivia um neo-colonialismo mantendo influências por toda a região e estabelecendo nalguns países bases militares de considerável dimensão, até a administração Clinton começar a substituir-se à influência francesa.
Angola, apanhada precisamente na zona de charneira entre a África Central e Austral, exigia particular habilidade para em plena guerra gerir a sua diplomacia, procurar aliados fora dos blocos instituídos e encontrar soluções regionais.
O apoio à independência do Zimbabwe, Namíbia e ao ANC na sua luta contra o apartheid não eram negociáveis; eram princípios de que o MPLA e José Eduardo dos Santos não podiam nem queriam abandonar. Foi por isso notável como lentamente se consolidou um grupo chamado Linha da Frente, países limítrofes da África do Sul que constituíram o primeiro bloco internacional contra o regime do apartheid e mesmo contra a ingerência de Pretória em Angola, embora alguns o fizessem com reservas.
O caminho de Angola, conquistando posições e aliados em Bruxelas (na então Comunidade Europeia), mesmo colidindo por vezes com os interesses franceses, bem como a forma como penetrou na diplomacia norte-americana, usando primeiro os “lobbies”, depois, sem os descurar, projectando a sua missão diplomática junto da Organização dos Estados Americanos, foi notável pela estratégia com que foi conduzido, como pela perseverança dos seus actores em procurar e conseguir dialogar com todos os intervenientes directos e indirectos no processo angolano.
A situação não podia então ser mais insólita: os Estados Unidos exploravam e importavam o petróleo de Angola e exportavam os meios financeiros e os apoios políticos para a guerra contra o Governo com que negociavam. Só por si esta situação era quase suficiente para um corte, mas houve a inteligência de não o fazer, de manter as relações comerciais à margem das políticas e ir conquistando terreno.
A estratégia lentamente foi resultando mesmo que se tivesse de prolongar para lá do final da Guerra Fria e até da própria guerra em Angola. Bill Clinton reconheceu o Governo angolano saído das eleições internacionalmente consideradas livres e justas sob intensa pressão das petrolíferas que aguçavam o seu interesse no país, designadamente a Exxon.
Os democratas tiveram sempre um complexo quando se tratava de lidar com regimes que poderiam ser considerados de esquerda: o de não serem catalogados “liberais” pelos republicanos. Clinton teve porém de reconhecer as evidências que os próprios republicanos já aceitavam.
Para que tal sucedesse, José Eduardo dos Santos instruía a sua diplomacia no sentido de conquistar amizades e demonstrar em simultâneo o potencial económico do país.
A SADC entretanto formada era, e é, um forum privilegiado para a defesa de interesses comuns da África Austral, políticos e económicos. Também aqui Angola teve papel preponderante embora a SADC enfrente dificuldades em se tornar uma comunidade económica, como defendeu o Presidente angolano, que pudesse contrapor-se ao peso dos países desenvolvidos. As barreiras alfandegárias e a livre circulação não têm condições para serem ultrapassadas. Pior ainda quando se fala no “pulo” dado pela Organização de Unidade Africana para União Africana. Mas se ela pode começar nalgum lado, é num núcleo duro que pode ser constituído pela SADC.
As condições estão reunidas para que a confortável posição geopolítica de Angola, e a menor influência da África do Sul, para que assuma o papel de potência regional incontornável, charneira entre a África Austral e a África Central. Angola teve uma palavra a dizer na queda de Mobutu, como tem na estabilidade da região dos Grandes Lagos e da própria África subsaariana. Não foi por acaso que Hillary Clinton pediu o que já está a ser feito, a formação de unidades das Forças Armadas da RDC. Angola está já a formar um corpo militar de manutenção da paz, gozando da capacidade adquirida e da sua influência.
Paul Kagamé vem a Luanda como Kabila (pai e filho) discutirem os Grandes Lagos, como em Luanda se decidiu, no século passado, a saída, apesar de tudo relativamente pacífica, para a guerra que opôs Laurent Kabila às forças ligadas a Mobutu.
Com o Presidente angolano dialogaram nos últimos meses Sarkozy, cujos interesses petrolíferos não foram estranhos à visita, Ângela Merkel, Cavaco Silva, Medvedev, Jacob Zuma e Hillary Clinton. Visitas de circunstância? Sim, mas não só. Reconhecimento da importância crescente de um país que está a manter o seu crescimento económico, mesmo reduzindo a produção petrolífera, mantém a estabilidade política em tempo de crise económica e se vê na obrigação de agir internacionalmente para garantir a segurança na região.
O papel de Angola avoluma-se. Na reunião do G-8 o Presidente angolano teria sido determinante na defesa dos países mais pobres e consequentemente no aumento substancial da ajuda ao desenvolvimento ao combate à fome e ao custo exorbitante dos bens alimentares.
José Eduardo dos Santos deu os primeiros sinais da sua visão do novo século, dias antes do seu aniversario, em Agosto de 90, ao afirmar numa entrevista que então lhe fiz: “Acho que há um esforço por parte do Presidente De Klerk e de algumas outras figuras que com ele colaboram, no sentido de criar condições para dissolver todos esses instrumentos repressivos, de modo a estabelecer-se uma nova África do Sul democrática, que permita a intervenção de todas as forças políticas. Estão agora num processo de negociações bastante complicado, mas penso que o Presidente De Klerk é uma peça-chave, bem como o Presidente do ANC, o sr. Nelson Mandela, para que esse entendimento possa ser encontrado o mais depressa possível”.
Na mesma ocasião, Agosto de 90, escrevi há um ano no Jornal de Angola, ele não esqueceu a importância económica da África Austral no contexto regional e Mundial: “Vemos para o futuro um papel importante para este país, pois na região é o que tem a economia mais desenvolvida. Tem uma capacidade tecnológica apreciável, é potencialmente rico e, num sistema de complementaridade, poderá trabalhar com outros países da África Austral para valorizar os recursos da zona e melhorar as condições de vida das populações. Poderá, para além disso, criar-se aqui nesta zona um conjunto de países africanos que pode servir o desenvolvimento do continente, enfrentando assim os desafios que o futuro colocará face à Europa unida comunitária do ano 2000, que integrará certamente os países da Europa do Leste, e face a outros conjuntos que se vão formando por toda a parte no mundo, no continente americano, no asiático, etc.”
Depois do corrupio diplomático a Luanda e dos convites ao seu Presidente e governantes, restam poucas dúvidas de que José Eduardo dos Santos tem sido consequente com a sua estratégia internacional e ela não é produto de conjunturas.