| 30 Junho 2006
Na Palestina tudo se tornou um aparente fatalismo. À resolução de cada problema sucede-se a criação de outro, por cada passo em frente no caminho da paz surge logo um novo passo atrás. A violência não é uma espiral incontrolável, mas a busca da paz é um p
Nem vale a pena
discutir se foi o ovo ou a galinha. Se o ataque de milícias do Hamas,
que ocorreu domingo e culminou com o rapto de um militar israelita se
seguiu a um ataque de comandos israelitas que no sábado entrou em
território palestiniano para raptar dois presumíveis militantes do
Hamas.
Na Palestina o domingo não sucede necessariamente ao sábado. A sequência dos acontecimentos não é ditada pelo tempo, essa interminável sucessão de minutos e horas, que originam a subdivisão do mês em dias, mas pelas declarações e a vontade política, infelizmente com excessiva frequência do Governo de Israel.
Yasser Arafat era para muitos israelitas, especialmente os falcões, e George W. Bush, a «bette noire» que impedia a paz na Palestina. Morto Arafat, Mahmoud Abbas, seu sucessor à frente da Fatah e da Autoridade Palestiniana, favorito dos opositores externos de Arafat, não tem conseguido melhor. A Palestina teve eleições que não tiveram a possibilidade de ser antecedidas por um período de estabilidade interna e externa (as duas confundem-se e nunca se sabe quem provoca as duas). O resultado foi inevitável, os extremistas que se opunham a Arafat ganharam as eleições, ainda por cima verificadas internacionalmente - como sucedeu no Iraque com a vitória xiita.
Israel reagiu negativamente, outra coisa não seria de esperar. Mas em relações internacionais o esperável não é na maior parte das vezes o desejável. Nas prisões israelitas continuam oito mil palestinianos, sob as mais diversas acusações ou sem acusação. Israel tem a força e age como a arrogância da sua mística invencibilidade. Ignora um fatalismo: o de ser obrigado a coexistir com os palestinianos num território que ancestralmente partilhou uno e indivisível. Um tratado do pós-guerra deu ao povo judeu um país, um território, um santuário para que um holocausto se não repetisse. À custa dos palestinianos expulsos das suas casas e das suas propriedades.
Ao fim de quase cinco décadas as várias soluções têm sido torpedeadas. O inimaginável aconteceu esta semana. Os palestinianos encarcerados elaboraram um documento em que reconheciam ou defendiam o direito a um estado palestiniano dentro das fronteiras actualmente definidas, a Faixa de Gaza e a margem ocidental do Jordão (como se uso chamar-lhe). Em diplomacia este documento, que o radical Hamas legitimamente no Governo (está lá através de um processo eleitoral monitorizado internacionalmente) aceitou era um importantíssimo passo por reconhecer implicitamente Israel e o seu direito à existência. Uma exigência fundamental e legitima, no quadro do pós-guerra, dos israelitas. Se o Estado Palestiniano existia dentro dessas fronteiras, com que Israel concorda, então não existia fora delas. M. de La Palisse não poderia colocar melhor o assunto. Era apenas uma questão de tempo e paciência para que Israel visse o seu reconhecimento.
Um documento destes não se consegue fazer em segredo, sobretudo dentro das prisões israelitas. O Governo israelita sabia da sua existência. Isso tornou absurdo o ataque israelita de sábado, a que se seguiu o do Hamas no domingo. O caldo entornou-se. Como se não bastasse um porta-voz do Governo israelita veio a publico mais como um «porta-bocas» afirmar que o documento era um assunto interno dos palestinianos. Como se houvesse naquele território assuntos internos palestinianos ou israelitas! Tudo quanto se faça tem repercussões no território globalmente.
Da incursão israelita – não se tratou de uma invasão – resultou a prisão de vários ministros do Governo palestiniano e membros do seu parlamento.
Não está em jogo apenas a questão israelo-palestiniana ou israelo-árabe; estão em jogo os fundamentos do Direito Internacional, dos povos à sua existência (a começar pelos israelitas) e a segurança internacional. O conflito serve bem aos que procuram interpretar de forma intolerante o Corão, fundamentalizam as questões e sustentam que os ataques aleatórios, indiscriminados, em qualquer parte do Mundo, incluindo Árabe se justificam pela opressão dos «ricos». O terrorismo, como se generalizou chamar-se-lhe, se não recruta militantes na Palestina, usa-a para justificar os seus meios. Os seus fins e a quem servem, esses são insondáveis.
Alguém, algum dia, algures tem de ter o poder e a força suficiente para dizer basta e tapar o fundo do poço.
Na Palestina o domingo não sucede necessariamente ao sábado. A sequência dos acontecimentos não é ditada pelo tempo, essa interminável sucessão de minutos e horas, que originam a subdivisão do mês em dias, mas pelas declarações e a vontade política, infelizmente com excessiva frequência do Governo de Israel.
Yasser Arafat era para muitos israelitas, especialmente os falcões, e George W. Bush, a «bette noire» que impedia a paz na Palestina. Morto Arafat, Mahmoud Abbas, seu sucessor à frente da Fatah e da Autoridade Palestiniana, favorito dos opositores externos de Arafat, não tem conseguido melhor. A Palestina teve eleições que não tiveram a possibilidade de ser antecedidas por um período de estabilidade interna e externa (as duas confundem-se e nunca se sabe quem provoca as duas). O resultado foi inevitável, os extremistas que se opunham a Arafat ganharam as eleições, ainda por cima verificadas internacionalmente - como sucedeu no Iraque com a vitória xiita.
Israel reagiu negativamente, outra coisa não seria de esperar. Mas em relações internacionais o esperável não é na maior parte das vezes o desejável. Nas prisões israelitas continuam oito mil palestinianos, sob as mais diversas acusações ou sem acusação. Israel tem a força e age como a arrogância da sua mística invencibilidade. Ignora um fatalismo: o de ser obrigado a coexistir com os palestinianos num território que ancestralmente partilhou uno e indivisível. Um tratado do pós-guerra deu ao povo judeu um país, um território, um santuário para que um holocausto se não repetisse. À custa dos palestinianos expulsos das suas casas e das suas propriedades.
Ao fim de quase cinco décadas as várias soluções têm sido torpedeadas. O inimaginável aconteceu esta semana. Os palestinianos encarcerados elaboraram um documento em que reconheciam ou defendiam o direito a um estado palestiniano dentro das fronteiras actualmente definidas, a Faixa de Gaza e a margem ocidental do Jordão (como se uso chamar-lhe). Em diplomacia este documento, que o radical Hamas legitimamente no Governo (está lá através de um processo eleitoral monitorizado internacionalmente) aceitou era um importantíssimo passo por reconhecer implicitamente Israel e o seu direito à existência. Uma exigência fundamental e legitima, no quadro do pós-guerra, dos israelitas. Se o Estado Palestiniano existia dentro dessas fronteiras, com que Israel concorda, então não existia fora delas. M. de La Palisse não poderia colocar melhor o assunto. Era apenas uma questão de tempo e paciência para que Israel visse o seu reconhecimento.
Um documento destes não se consegue fazer em segredo, sobretudo dentro das prisões israelitas. O Governo israelita sabia da sua existência. Isso tornou absurdo o ataque israelita de sábado, a que se seguiu o do Hamas no domingo. O caldo entornou-se. Como se não bastasse um porta-voz do Governo israelita veio a publico mais como um «porta-bocas» afirmar que o documento era um assunto interno dos palestinianos. Como se houvesse naquele território assuntos internos palestinianos ou israelitas! Tudo quanto se faça tem repercussões no território globalmente.
Da incursão israelita – não se tratou de uma invasão – resultou a prisão de vários ministros do Governo palestiniano e membros do seu parlamento.
Não está em jogo apenas a questão israelo-palestiniana ou israelo-árabe; estão em jogo os fundamentos do Direito Internacional, dos povos à sua existência (a começar pelos israelitas) e a segurança internacional. O conflito serve bem aos que procuram interpretar de forma intolerante o Corão, fundamentalizam as questões e sustentam que os ataques aleatórios, indiscriminados, em qualquer parte do Mundo, incluindo Árabe se justificam pela opressão dos «ricos». O terrorismo, como se generalizou chamar-se-lhe, se não recruta militantes na Palestina, usa-a para justificar os seus meios. Os seus fins e a quem servem, esses são insondáveis.
Alguém, algum dia, algures tem de ter o poder e a força suficiente para dizer basta e tapar o fundo do poço.